Objetivo
Implementar e fortalecer um sistema integrado e sustentável de produção agropecuária que promova diversificação agrícola, manejo adequado do gado, conservação da flora, proteção dos recursos hídricos e aumento da renda das famílias da Comunidade São Francisco do Caramuri.
Objetivos específicos
1. Integrar agricultura, pecuária e reflorestamento para reduzir pragas, melhorar o solo e ampliar a produtividade.
2. Garantir acesso seguro à água para consumo humano e produção através de poços artesianos e irrigação de baixo custo.
3. Recuperar APPs e margens de igarapés por meio de cercamento e reflorestamento.
4. Implantar piquetes rotacionados para manejo eficiente do gado e redução do desmatamento.
5. Fortalecer a produção de abacaxi, pitaya, hortaliças e SAFs em áreas já utilizadas.
6. Promover capacitações, intercâmbios e governança comunitária sobre práticas sustentáveis.
Problema Solucionado
A Comunidade São Francisco do Caramuri enfrentava baixa produtividade agrícola, aumento de pragas como a vassoura-de-bruxa no cupuaçu, degradação da flora nativa, falta de diversificação produtiva e danos ambientais causados pelo acesso do gado às margens dos igarapés. A escassez de água no verão comprometia tanto o consumo humano quanto as atividades agrícolas. A degradação de APPs, somada à necessidade de abrir novas áreas de pasto, pressionava o território e reduzia a resiliência ambiental. A monocultura facilitava o avanço de pragas e diminuía a renda das famílias. Diante desse cenário, a comunidade identificou a necessidade de um sistema integrado que unisse produção agropecuária sustentável, conservação da flora, manejo hídrico, reflorestamento e participação comunitária para restaurar a produtividade e proteger os recursos naturais.
Descrição
O Sistema Integrado Caramuri de Produção Agropecuária Sustentável, Conservação da Flora e dos Recursos Hídricos é uma tecnologia social criada pela comunidade a partir da necessidade de unir produção, água e proteção ambiental em um único modelo eficiente, de baixo custo e adaptado às condições amazônicas. Ele se estrutura em cinco eixos principais: produção agrícola, pecuária sustentável, segurança hídrica, recuperação ambiental e participação social.
1. Produção Agrícola Integrada: O sistema incorpora culturas como abacaxi, pitaya, cupuaçu, hortaliças e pequenos Sistemas Agroflorestais (SAFs). A diversificação reduz pragas e doenças, melhora a renda e permite um ciclo produtivo contínuo. Áreas de pasto já utilizadas são reaproveitadas em três etapas: primeiro com abacaxi, depois com pitaya e por fim com hortaliças ou outras culturas como banana e açaí. Essa rotação aproveita a fertilidade deixada pelo gado e reduz a necessidade de abrir novas áreas, evitando o desmatamento. A pitaya é integrada com hortaliças em consórcios eficientes com irrigação de baixo custo utilizando sistemas por pressão natural, que dispensam energia elétrica. Enquanto o abacaxi é cultivado em áreas de pastagem com redução do uso de agrotóxicos. As hortas familiares são instaladas em tambores reciclados, garantindo produção de alimentos saudáveis, redução de lixo e melhor qualidade de vida.
2. Pecuária Sustentável com Manejo Rotacionado: O gado é manejado em piquetes rotacionados de 1 hectare, permitindo descanso do capim e alimentação adequada para o gado, evitando degradação do solo e aumentando a produtividade da pastagem. Esse manejo impede a necessidade de abrir novas áreas e limita o impacto ambiental da pecuária. O esterco é usado como biofertilizante para hortas e cultivos da pitaya com outros culturas, reduzindo a dependência de insumos externos. O pastoreio também tem papel funcional na lavoura: a presença do gado controla naturalmente a “vassoura-de-bruxa” no cupuaçu, reduzindo perdas e salvando áreas produtivas. Durante o verão amazônico, o manejo adequado evita o deslocamento para várzeas, diminuindo custos e impactos ambientais.
3. Segurança Hídrica e Manejo de Recursos Hídricos: Poços artesianos comunitários garantem água potável para consumo humano e para a agricultura, reduzindo a vulnerabilidade da comunidade em períodos de seca severa. Sistemas de irrigação simples, com base em pressão por gravidade ou baixa pressão, foram adotados para culturas como abacaxi e hortaliças, assegurando produção contínua. Para proteger os igarapés, foram instaladas cercas que impedem o gado de acessar as margens, reduzindo erosão, assoreamento e contaminação. As Áreas de Preservação Permanente (APPs) ao redor das nascentes e igarapés estão sendo recuperadas por meio de plantio de espécies nativas e manejo ambiental comunitário. Esse processo fortalece a flora e garante a conservação dos recursos hídricos.
4. Conservação da Flora e Recuperação Ambiental: Com a restrição do gado às áreas manejadas e com o uso de piquetes, os agricultores deixaram de abrir novas áreas, permitindo regeneração natural da flora. O reflorestamento das margens das propriedades protege a fauna aquática, melhora a qualidade da água e fortalece a biodiversidade local. Espécies nativas são priorizadas, garantindo recomposição ambiental alinhada ao bioma amazônico.
5. Participação Social, Educação e Gestão Comunitária: Toda a iniciativa é construída de forma participativa. A comunidade contribui com ideias, decisões e avaliações. São realizados dias de campo, formações, cursos, intercâmbios, oficinas e assistência técnica em parceria com ACASFC, SEMACC, ADS, IDAM, SEPROR, UFAM, SEBRAE, SENAR e instituições privadas. O conhecimento tradicional dos agricultores é integrado ao conhecimento técnico, criando uma metodologia simples, eficaz e totalmente replicável. A governança comunitária é articulada com base em assembleias, gestão coletiva dos poços, dos implementos agrícolas, da logística fluvial (barco empurrador + balsa) regras para uso das áreas comuns, regimento para proteção dos igarapés e planejamento participativo para expansão dos SAFs e piquetes. O diálogo entre famílias produtoras e instituições técnicas garante apoio contínuo e legitimação da tecnologia social.
Integração dos Componentes: O grande diferencial desta tecnologia é a capacidade de integrar agricultura, pecuária, manejo hídrico e conservação ambiental em um sistema único. Cada componente fortalece o outro: o gado controla pragas e fertiliza o solo; a diversificação agrícola reduz riscos e amplia renda; a irrigação garante produção mesmo na seca; o reflorestamento protege a água; e o manejo coletivo assegura continuidade e apropriação comunitária. O Sistema Integrado Caramuri representa um modelo inovador de desenvolvimento rural amazônico, eficiente, de baixo custo, ecológico, socialmente justo e facilmente replicável por outras comunidades ribeirinhas agrícolas, indígenas e quilombolas.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade do Sistema Integrado Caramuri exige materiais simples, de baixo custo e adequados à agricultura familiar. Para a produção agrícola são necessárias mudas e sementes (abacaxi, pitaya, hortaliças e nativas), estacas para pitaya, adubo orgânico, ferramentas manuais (enxadas, pás, facões, carrinho de mão) e tambores reciclados para hortas domiciliares. Para o manejo pecuário, utilizam-se estacas para piquetes, arame liso, portões, bebedouros, saleiros e cochos.
Na segurança hídrica, são necessários poço artesiano, bomba submersa, caixas d’água, tubulações PVC, mangueiras e conexões para irrigação de baixa pressão. Para proteção de igarapés e reflorestamento, utilizam-se estacas, arame, mudas nativas, adubo orgânico e materiais simples para viveiros (sombrite, tubetes).
O sistema também demanda cadernos de campo, quadros, materiais impressos e espaço comunitário para formações. Os recursos humanos incluem técnico agrícola/agronômico, facilitador comunitário e agricultores capacitados, além de apoio para instalação de poço e orientação técnica. Esses insumos garantem a implementação completa da tecnologia social com eficiência e baixo custo.
Resultados Alcançados
A implementação do Sistema Integrado Caramuri gerou resultados concretos, observáveis e avaliados pela própria comunidade. Entre os principais avanços estão o aumento da produtividade agrícola, a redução de pragas, o fortalecimento da segurança hídrica e a recuperação ambiental das propriedades.
Na agricultura, a diversificação dos cultivos com abacaxi, pitaya, hortaliças e SAFs aumentou a produção anual das famílias, garantindo colheita ao longo de todo o ano. Em áreas onde o cupuaçu foi afetado pela vassoura-de-bruxa, o manejo com presença controlada do gado eliminou 90% a infestação, recuperando áreas produtivas antes perdidas. Hortas domiciliares instaladas em tambores reciclados ampliaram o acesso a alimentos saudáveis, reduzindo a dependência de compras externas e o uso de agrotóxicos.
Na pecuária, o sistema de piquetes rotacionados melhorou a qualidade das pastagens, reduziu a degradação do solo e eliminou a necessidade de abertura de novas áreas, contribuindo para a conservação da flora. A permanência do gado em áreas de terra firme durante o verão reduziu custos logísticos e impactos ambientais associados ao deslocamento para áreas de várzeas.
Em relação à água, a perfuração de poços artesianos garantiu acesso contínuo a água potável para consumo humano e produção, mesmo em períodos de estiagem. A instalação de cercas ao redor de igarapés e margens evitou a degradação das APPs, reduziu a erosão e melhorou a qualidade da água. Famílias relatam maior segurança alimentar, estabilidade produtiva e melhoria na saúde.
O reflorestamento de margens e áreas degradadas com espécies nativas fortaleceu a biodiversidade, aumentou a proteção contra erosões e melhorou o microclima das propriedades. A governança comunitária tornou-se mais estruturada, com maior participação das mulheres e jovens em processos decisórios.
Os resultados foram acompanhados por meio de visitas técnicas, registros fotográficos, relatos das famílias, atas comunitárias e avaliações participativas, demonstrando que a tecnologia social é eficaz, replicável e promotora de desenvolvimento sustentável.
Público atendido
- Agricultores Familiares
- Trabalhadores Rurais
- Pequenos Produtores Rurais
- População Ribeirinha
- Criadores de Bovinos
- Lideranças Comunitárias
- Povos Tradicionais
- Adolescentes
- Jovens
- Mulheres
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