Objetivo
Fortalecer a capacidade do território do Jardim Ibirapuera de produzir, interpretar e utilizar dados e evidências para a transformação social, por meio de uma metodologia participativa de pesquisa, mensuração de impacto e formação comunitária, promovendo protagonismo local, incidência política e desenvolvimento territorial sustentável.
Problema Solucionado
Territórios periféricos enfrentam um déficit histórico na produção e no uso de dados sobre suas realidades. Quando existem pesquisas, elas costumam ser externas, pouco acessíveis e sem devolutiva para a comunidade, o que gera invisibilização, dificulta o planejamento territorial e limita a incidência em políticas públicas e no acesso a recursos e investimentos sociais.
A tecnologia social do Observatório Ibira30 enfrenta esse problema ao estruturar um modelo de transformação territorial baseado em três pilares integrados: pesquisa, mensuração de impacto e formação. As pesquisas são construídas de forma participativa, a partir da escuta qualificada dos moradores e da leitura dos desafios e sonhos do território, articulando dados quantitativos e qualitativos.
A mensuração de impacto produz evidências concretas sobre os efeitos sociais, culturais, econômicos e ambientais de iniciativas comunitárias e políticas públicas. A formação garante a devolutiva dos dados à comunidade, fortalecendo a capacidade local de interpretação, tomada de decisão e incidência.
Como um think tank de periferia, integrado ao Bloco do Beco, o Observatório transforma dados em ferramentas práticas para sonhar.
Descrição
O Observatório Ibira30 é uma tecnologia social desenvolvida a partir da trajetória do Bloco do Beco, organização social com mais de 23 anos de atuação contínua no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Desde sua fundação, o Bloco do Beco atua na promoção do direito à cultura, educação e participação social, consolidando-se como um equipamento cultural comunitário e uma referência territorial na articulação entre moradores, coletivos, escolas, serviços públicos e organizações sociais.
A partir de 2022, essa atuação histórica passou a ser potencializada pela criação do Observatório Ibira30, que incorporou a produção e o uso estratégico de dados como ferramenta central para fortalecer o programa Ibira30 – Bairro Educador, estruturado a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) territorializados. O Observatório nasce, portanto, da prática concreta no território e da necessidade de qualificar decisões, ampliar incidência e transformar evidências em ação coletiva.
A metodologia do Observatório está organizada como uma “esteira” de produção e compartilhamento do conhecimento, orientada pela inovação social centrada nas pessoas. O processo inicia-se pela descoberta empática, por meio de imersões no território, escuta qualificada, etnografia comunitária e diálogo direto com moradores, lideranças e profissionais locais. Essa etapa permite compreender aspirações, desafios e prioridades reais da comunidade, identificando problemas complexos e oportunidades de pesquisa.
Na sequência, ocorre a co-criação participativa e prototipagem, envolvendo moradores, especialistas, universidades, poder público e parceiros estratégicos. As ideias e demandas levantadas são traduzidas em protótipos de pesquisa aplicados, que articulam problema, hipótese, metodologia e conexões com lacunas de políticas públicas do território. Esses protótipos são testados por meio de prototipagem rápida, permitindo ajustes contínuos e refinamento das abordagens.
A participação da comunidade acontece em todas as etapas do processo: definição dos temas de pesquisa, construção dos instrumentos, aplicação dos questionários, leitura dos resultados e devolutiva dos dados. Moradores atuam como pesquisadores de campo, participantes das escutas, público das formações e sujeitos ativos na interpretação dos resultados, garantindo que o conhecimento produzido seja legítimo, acessível e útil para o território.
O Observatório opera de forma integrada a um ecossistema de parcerias, que inclui universidades, organizações da sociedade civil, coletivos locais, fundações, empresas e órgãos públicos. Essas parcerias ampliam o acesso a conhecimento técnico, recursos, canais de incidência e possibilidades de reaplicação da tecnologia social. A interação com a comunidade é contínua e mediada pelos espaços e programas do Bloco do Beco, como biblioteca comunitária, ateliês, laboratórios e ações em espaços públicos.
A mensuração de impacto é um eixo estruturante da metodologia. O Observatório realiza pesquisas quantitativas e qualitativas, com amostragens representativas, escutas especializadas e análises de dados secundários, produzindo indicadores sociais, culturais, educacionais, econômicos e ambientais. Desde sua criação, já realizou dezenas de pesquisas concluídas e em andamento, envolvendo centenas de entrevistas com moradores, profissionais da educação, cultura, saúde e assistência social, gerando evidências concretas sobre hábitos, acesso a direitos, impactos de políticas públicas e iniciativas comunitárias.
A etapa de formação e devolutiva transforma os dados em conhecimento acessível, por meio de relatórios públicos, encontros comunitários, formações, materiais pedagógicos e estratégias de comunicação inspiradora, conectando dados a narrativas territoriais. Essa devolutiva fortalece o protagonismo local, amplia a capacidade de planejamento comunitário e estimula o uso dos dados como ferramenta de incidência política e social.
Por fim, o Observatório adota uma lógica de inovação contínua, avaliação e escalabilidade inteligente, incorporando aprendizado permanente, uso de tecnologias, análise de tendências e construção de redes. Essa sistematização permite que a tecnologia social seja reaplicável em outros territórios periféricos, mantendo o princípio central: produzir conhecimento com e para a comunidade, como instrumento de transformação social de longo prazo.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da Tecnologia Social do Observatório requer uma estrutura enxuta, com forte centralidade em pessoas do território. A estimativa anual de recursos para operação é de aproximadamente R$ 200.000, destinados principalmente a recursos humanos, materiais e equipamentos básicos.
A equipe mínima envolve coordenação de pesquisa, analistas de dados, mobilização comunitária e agentes de pesquisa locais, priorizando a contratação e formação de moradores do bairro. Esses profissionais fazem a ponte entre universidade, saberes periféricos e ancestrais, práticas comunitárias e a produção científica aplicada.
Em termos de materiais e equipamentos, são necessários computadores, tablets ou smartphones para coleta de dados, softwares básicos de análise, armazenamento digital, acesso à internet, materiais de apoio para formações e encontros comunitários, além de infraestrutura física simples para reuniões, oficinas e devolutivas.
Mais do que equipamentos, o principal recurso da tecnologia social é o capital humano local, com interesse e compromisso com a pesquisa, a escuta qualificada e a transformação territorial, garantindo baixo custo de implantação e alto potencial de reaplicação em outros territórios periféricos.
Resultados Alcançados
A implantação da tecnologia social do Observatório Ibira30 tem contribuído para ampliar o alcance, a efetividade e a capacidade de incidência das ações do Bloco do Beco no Jardim Ibirapuera. Atualmente, o Bloco do Beco impacta cerca de 10 mil pessoas por ano, entre moradores, participantes de atividades culturais, educativas e formativas. A tecnologia social tem como horizonte ampliar esse alcance para as aproximadamente 50 mil pessoas que vivem no território, qualificando ações diretas e incidência estrutural.
O Observatório atua diretamente com esse público por meio de pesquisas participativas e da geração de iniciativas concretas a partir dos achados dos estudos. Hoje, mais de 20 projetos intersetoriais do Bloco do Beco são planejados, ajustados ou fortalecidos com base em evidências produzidas pelo Observatório, “atacando” gargalos identificados nas áreas de cultura, educação, alimentação, saúde, trabalho e desenvolvimento territorial.
Entre os resultados quantitativos, destacam-se: 13 estudos publicados, envolvendo centenas de entrevistas com moradores e profissionais do território; a formação e contratação de mais de 30 agentes de pesquisa locais, fortalecendo a economia comunitária e a cultura de dados na periferia; e uma ampla repercussão pública, com matérias em mais de 30 veículos de imprensa, entre jornais, revistas, rádio e televisão, alcançando um público estimado superior a 1 milhão de pessoas.
Como resultado qualitativo, observa-se o fortalecimento do protagonismo comunitário, o reconhecimento do território como produtor legítimo de conhecimento e o uso dos dados como ferramenta de planejamento, incidência e diálogo com o poder público e o investimento social privado.
Dois exemplos ilustram esses impactos. A pesquisa “Lei Rouanet e as Periferias” evidenciou profundas desigualdades regionais no acesso aos recursos da lei, subsidiou uma estratégia de advocacy liderada pelo Observatório e pelo Bloco do Beco e contribuiu para a formação de uma frente ampla em diálogo com o Ministério da Cultura, voltada à descentralização de recursos e à criação de novos mecanismos de indução. Já a pesquisa de Hábitos Culturais revelou relações entre cultura, alimentação e território, orientando o fortalecimento do programa EPAS Ibira30, com hortas comunitárias e ações de soberania alimentar.
O acompanhamento dos resultados é realizado por meio de mensuração de impacto, séries históricas, escutas qualitativas e avaliações participativa.
Público atendido
Adolescentes
Adulto
Afrodescendentes
Crianças
Diretor de Escola
Organização Não Governamental
Jovens
Alunos do Ensino Básico
Jornalistas
Lideranças Comunitárias
Comentários