Objetivo
Promover o protagonismo das escolas, da comunidade, da cultura tradicional pesqueira e indígena na transformação socioambiental, fortalecendo o pertencimento territorial e estimulando atitudes sustentáveis. O projeto une arte, ciência e saberes tradicionais como instrumentos pedagógicos, por meio da formação de educadores, da mobilização comunitária e do uso do manguezal como referência didática.
Problema Solucionado
A Praia da Mutuca, no sul da Ilha de Florianópolis, abriga um manguezal de grande relevância ecológica e cultural, mas fortemente pressionado pelo descarte de resíduos, ocupações irregulares, ausência de manejo e desconhecimento da comunidade sobre suas funções ecológicas. A distância entre escola, território e saberes tradicionais favorece a continuidade de práticas insustentáveis e limita oportunidades de vivenciar o manguezal como espaço educativo. Soma-se a isso a pouca oferta de formações docentes que integrem temas socioambientais ao currículo e valorizem culturas tradicionais, dificultando abordagens interdisciplinares e enfraquecendo o pertencimento territorial. O Mutuca Educa responde a essas lacunas ao transformar o manguezal em referência didática, promovendo formação de educadores, integração curricular ao território, ações coletivas de manejo ambiental e diálogo intercultural. Ao fortalecer o protagonismo da comunidade escolar e dos moradores, e ao integrar saberes tradicionais pesqueiros e indígenas, a iniciativa amplia a consciência crítica e o sentimento de pertencimento, promovendo transformação socioambiental e valorizando as culturas que constituem o território.
Descrição
O Mutuca Educa é uma Tecnologia Social desenvolvida pela Associação das Dunas de Florianópolis (ADUF), em parceria com o Coletivo Espaço Tempo, Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (FLORAM), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Escola do Mar e escolas da rede básica. A iniciativa integra educação ambiental crítica, arte pública e valorização das culturas tradicionais pesqueiras e indígenas, fortalecendo o protagonismo de escolas e territórios na transformação socioambiental e utilizando o manguezal da Praia da Mutuca como espaço educativo vivo.
A relação com a comunidade é horizontal e contínua: educadores, famílias, lideranças locais, instituições públicas e comunidades tradicionais participam das decisões sobre as ações, fortalecendo vínculos, corresponsabilidade e apropriação coletiva da tecnologia. A TS combina dimensões pedagógicas, culturais e ambientais, sustentadas por participação social e valorização dos saberes ancestrais. A implementação conta com monitoramento sistemático garantindo transparência, avaliação contínua e aprimoramento permanente.
A tecnologia nasceu da atuação prévia das instituições parceiras no território. A ADUF possui histórico consolidado de ações socioambientais e educativas em Unidades de Conservação, favorecendo a articulação interinstitucional. O Coletivo Espaço Tempo atua há anos com arte pública e educação ambiental, estabelecendo vínculos de confiança e engajamento local. A partir dessas experiências, identificou-se a necessidade de apoiar as escolas na integração da educação ambiental e cultural às práticas pedagógicas, alinhadas às políticas educacionais e ao desenvolvimento integral dos estudantes.
A metodologia está organizada em sete etapas, adaptáveis a diferentes realidades:
Planejamento inicial e diagnóstico territorial: articulação interinstitucional, mapeamento de áreas naturais próximas às escolas, levantamento de demandas socioambientais e de saberes tradicionais, definição de cronograma e formalização das parcerias.
Formação docente e planejamento interdisciplinar: encontros mensais, oficinas teóricas e práticas, expedições formativas e elaboração conjunta de planos de aula articulados ao território.
Produção de materiais educativos: criação conjunta de materiais digitais, visuais e textuais que sistematizam aprendizagens e ampliam o repertório didático.
Valorização ambiental e paisagística: criação de murais, esculturas, placas educativas e intervenções que expressam identidades culturais e conhecimentos do território.
Eventos de integração socioambiental: roteiros ecopedagógicos, mutirões de limpeza e plantio de mudas nativas e atividades comunitárias.
Valorização de saberes tradicionais: vivências formativas com comunidades pesqueiras e indígenas, rodas de conversa, trocas interculturais e reconhecimento de práticas sustentáveis ancestrais.
Encerramento do ciclo: consolidação de indicadores, relatório técnico, produção audiovisual e devolutiva pública.
No ciclo de 2025, o Mutuca Educa contou com 46 educadores, envolveu aproximadamente 300 estudantes e realizou 12 ações formativas e comunitárias. Foram produzidos materiais digitais e audiovisuais; confeccionada a escultura Chama-Maré; pintado mural artístico coletivo; e instaladas placas ecológicas. Nos mutirões, retiraram-se cerca de 1.500 kg de resíduos e plantaram-se mais de 300 mudas nativas. As evidências incluem listas de presença, relatórios fotográficos e audiovisuais, planos de atividade docente, certificações da Secretaria Municipal de Educação e declarações assinadas por instituições e comunidades tradicionais.
Impactos positivos na vida das comunidades tradicionais:
A participação das comunidades pesqueiras e indígenas como educadoras do território ampliou sua visibilidade, legitimidade e reconhecimento social, fortalecendo identidades, memórias e direitos culturais. As vivências com pescadores valorizaram suas práticas tradicionais e sua leitura ambiental do manguezal da Tapera. A atuação do cacique Sadrak como coformador reafirmou o conhecimento indígena como saber qualificado, rompendo visões coloniais. As visitas ao território indígena foram acompanhadas por ações solidárias, como doação voluntária de alimentos, e pela inclusão de artesanato Kaingang na feira escolar, valorizando sua produção material e ampliando sua renda. Estudantes passaram a reconhecer e respeitar práticas ancestrais ligadas à conservação, fortalecendo a educação intercultural e anti-racista.
O Mutuca Educa consolida-se como uma tecnologia social participativa, territorializada e intercultural, capaz de articular ciência, arte e memória coletiva para fortalecer o pertencimento territorial e promover transformações socioambientais duradouras. A experiência demonstra que o aprendizado se intensifica quando o território é vivido, reconhecido e reconstruído coletivamente — tornando-se instrumento de cuidado ambiental, valorização cultural e protagonismo de escolas e comunidades
Recursos Necessários
Para implantar uma unidade do Mutuca Educa são necessários recursos humanos, materiais pedagógicos, insumos, equipamentos de campo e infraestrutura leve, entendida como equipamentos móveis que dão suporte às formações, aos roteiros ecopedagógicos e às ações comunitárias. A equipe interdisciplinar é composta por coordenador(a) pedagógico(a), articuladores(as) comunitários(as), artista-educador(a), professores(as) e lideranças locais. São utilizados materiais para produção de sinalizações ecológicas e produção artística, como placas educativas em madeira ou acrílico, suportes para instalação e insumos para obras de arte e murais. Nas ações de campo e restauração ambiental utilizam-se ferramentas manuais de plantio como cavadeira, substratos e mudas nativas. Também são empregados materiais para mutirão de limpeza, como sacos de coleta, luvas e balanças para pesagem de resíduos. Para as etapas pedagógicas e formativas são necessários materiais didáticos (papel e impressões), além de equipamentos audiovisuais portáteis (projetor, caixa de som, microfone). Nos roteiros ecopedagógicos utilizam-se pranchetas e fichas de observação. A infraestrutura leve inclui caixas organizadoras, tripés, câmeras ou celulares para registro. Complementam os recursos a logística de transporte da equipe técnica e materiais para edição audiovisual e devolutivas. Todos os recursos são utilizados de forma coletiva, priorizando materiais reutilizáveis e de baixo impacto ambiental.
Resultados Alcançados
A implantação do Mutuca Educa resultou em avanços significativos nas dimensões pedagógica, ambiental e comunitária. Em 2025, o projeto capacitou 29 educadores, envolveu cerca de 300 estudantes e promoveu treze encontros formativos, além de oito ações de campo com estudantes na Praia da Mutuca e no território Indígena Goj Ta Sá. As atividades possibilitaram a retirada de 1.500 kg de resíduos do manguezal, o plantio de mais de 300 mudas e a instalação de uma placa de sinalização ecológica junto à escultura Caranguejo Chama-Maré, produzida pelo Coletivo Espaço Tempo. Também foram produzidos materiais didáticos digitais e de divulgação.
Essas ações geraram melhorias ambientais visíveis e um processo contínuo de sensibilização e apropriação do espaço natural como ambiente educativo. Educadores passaram a incorporar roteiros ecopedagógicos em seus planejamentos e relataram integração mais efetiva entre as disciplinas por meio da metodologia interdisciplinar e participativa. Também foi publicado um artigo sobre o Mutuca Educa no jornal da EBM Batista Pereira e organizado um estande na Feira de Ciências da escola, ampliando sua visibilidade e o reconhecimento da comunidade escolar sobre os resultados da iniciativa.
A TS também vem promovendo uma mudança gradual na percepção da comunidade sobre o manguezal, historicamente visto de forma pejorativa. Embora ainda existam práticas que comprometem o ecossistema, as ações do Mutuca Educa têm ampliado o reconhecimento do manguezal como espaço de aprendizado e identidade cultural. Moradores e professores destacaram a valorização dos saberes tradicionais das culturas pesqueira e indígena, integrando conhecimento científico e ancestral em um mesmo processo educativo. Nesse contexto, foi estabelecida parceria com a Associação dos pescadores da Tapera, Fórum dos Pescadores Tradicionais das Baías Norte e Sul e Território Indígena Goj Ta Sá, o que fortalece a dimensão intercultural e amplia a rede de colaboração.
O acompanhamento das ações é contínuo e participativo, com base em listas de presença, planos de aula e formulários de percepção. As observações e encontros de devolutiva permitem avaliar resultados, planejar melhorias e definir desdobramentos para as próximas etapas, garantindo a evolução constante da metodologia. O projeto está registrado na UFSC, certificado pela Secretaria Municipal de Educação e tem parceria formalizada com a FLORAM e Escola do Mar, assegurando reconhecimento institucional e governança compartilha
Público atendido
Alunos do Ensino Básico
População em Geral
Povos Indígenas
Povos Tradicionais
Professores do Ensino Básico
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