Objetivo
O objetivo da iniciativa é, por meio de uma metodologia participativa, oferecer assessoria técnica gratuita para realização de projetos e obras para a melhoria da acessibilidade habitacional de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida em situação de vulnerabilidade socioambiental.
Problema Solucionado
No Rio Grande do Norte, segundo o IBGE, 8,8% da população — mais de 285 mil pessoas — tem algum tipo de deficiência, sobretudo motora ou visual. Grande parte permanece invisível, pois os ambientes urbanos e domésticos raramente oferecem condições adequadas de acessibilidade. A taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência é três vezes maior que a da população geral, sendo, na maior parte dos casos, uma condição adquirida ao longo da vida, especialmente entre idosos.
Em Natal, o bairro de Mãe Luiza reflete intensamente essa realidade. Inserido em uma Área Especial de Interesse Social, apresenta baixos rendimentos e alta vulnerabilidade. Suas moradias, muitas vezes precárias e erguidas em terrenos íngremes, carecem de ventilação, segurança e equipamentos básicos de higiene, o que, para pessoas com deficiência, significa o confinamento dentro da própria casa.
O Mãe Luiza Acessível surge como resposta a essas barreiras físicas e sociais que negam o direito à moradia digna. A iniciativa reconhece a falta de acessibilidade como forma de exclusão e propõe soluções técnicas e participativas, sensíveis às realidades locais, para transformar casas em espaços de cuidado e pertencimento.
Descrição
O Mãe Luiza Acessível é uma metodologia participativa aplicada em uma assessoria técnica gratuita pioneira na promoção do direito à moradia digna para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida em situação de vulnerabilidade socioambiental. Desde 2021, atua no bairro de Mãe Luiza, em Natal/RN, ampliando a missão do Centro Sócio Pastoral Nossa Senhora da Conceição, instituição com mais de 40 anos de presença ativa no território.
Mãe Luiza é um bairro de origem popular, formado por famílias vindas do êxodo rural e reconhecido oficialmente em 1958. Inserido em uma Área Especial de Interesse Social, o território apresenta uma das menores rendas médias da cidade — cerca de 0,87 salário-mínimo — e mais de 90% das famílias vivem com renda per capita inferior a três salários. O bairro enfrenta problemas de infraestrutura, desemprego, déficit habitacional e barreiras urbanas que comprometem o direito à cidade. É nesse contexto que a assessoria técnica atua, desenvolvendo soluções arquitetônicas que aliam técnica, sensibilidade e inclusão.
A metodologia do Mãe Luiza Acessível baseia-se na escuta e na participação ativa das famílias. O processo inicia-se com um diagnóstico socioeconômico e habitacional, realizado em parceria com Agentes Comunitários de Saúde, que identificam as pessoas em maior vulnerabilidade. Em seguida, são feitos o levantamento cadastral e o mapeamento dos ambientes prioritários para adaptação. As próprias famílias decidem quais espaços serão reformados, de acordo com suas necessidades e possibilidades.
Na etapa de projeto, são elaborados os desenhos técnicos, o quantitativo de materiais e o orçamento das obras. As soluções são apresentadas e discutidas com os moradores por meio de maquetes físicas e táteis, que facilitam a compreensão espacial, especialmente para pessoas com deficiência visual. Essas ferramentas tornam o processo acessível e democrático, permitindo que todos compreendam e opinem sobre as propostas.
A execução das obras é realizada com mão de obra e materiais do próprio bairro, fortalecendo a economia local e ampliando o conhecimento técnico sobre acessibilidade entre os trabalhadores. As equipes são formadas e acompanhadas por arquitetos e técnicos da assessoria, garantindo qualidade e segurança. Essa estratégia gera um ciclo virtuoso: ao mesmo tempo em que as reformas melhoram a vida das famílias atendidas, também capacitam a comunidade e disseminam novas práticas construtivas.
O Mãe Luiza Acessível enfrentou desafios ao adaptar as normas de acessibilidade a moradias autoconstruídas e de dimensões reduzidas. Desse processo, surgiram soluções criativas e replicáveis, como banheiros compactos com chuveiro centralizado e o reposicionamento de caixas d’água em locais internos, quando o telhado não oferece segurança estrutural. Essas experiências demonstram que a acessibilidade é possível mesmo em contextos de alta precariedade, desde que se trabalhe com empatia e inovação.
A iniciativa é desenvolvida por uma equipe multidisciplinar e diversa, composta por arquitetos, engenheiros, estudantes e moradores do bairro, além de contar com o apoio de instituições de ensino superior e da Secretaria Municipal de Habitação. Ao longo de sua trajetória, mais de 40 profissionais e estudantes participaram das ações, reforçando o caráter coletivo e formativo do projeto.
Os resultados obtidos — 40 projetos, 31 obras e cerca de 120 pessoas beneficiadas diretamente — evidenciam o potencial transformador da metodologia. Em 2023, a iniciativa recebeu o Prêmio Arq.Pop da Federação Nacional dos Arquitetos, foi reconhecida em editais de fomento do CAU/BR e CAU/RN, passou a integrar o 5º Guia IAB para a Agenda 2030 e ganhou o Prêmio Periferias Vivas do Ministério das Cidades em 2025.
Mais recentemente, o projeto expandiu-se para outros territórios de Natal, como Vila de Ponta Negra e Brasília Teimosa, e se prepara para atender 100 novas famílias no bairro Felipe Camarão, em parceria com o PAC Periferias. Esse processo de capilarização demonstra que a assessoria técnica pode se tornar modelo de política pública de acessibilidade habitacional, unindo conhecimento técnico, participação social e compromisso ético com o direito à cidade.
Assim, o Mãe Luiza Acessível não é apenas um projeto de reformas, mas uma prática social que articula arquitetura, saúde, afeto e cidadania — uma tecnologia social construída a muitas mãos, capaz de inspirar novas formas de habitar e cuidar.
Recursos Necessários
A implantação de uma reforma padrão de banheiro para adequação à acessibilidade é dividida em duas etapas: projeto e obra. A etapa de projeto requer uma equipe mínima composta por um arquiteto, um estudante de arquitetura, um agente comunitário de saúde do bairro e um engenheiro hidrossanitário. Durante o diagnóstico e o desenvolvimento dos projetos, são necessários materiais para o levantamento dimensional do ambiente (trenas, prancheta, papel, caneta e câmera fotográfica), para a confecção de maquetes (placa de foam, cola branca, chapas de madeira balsa e peças sanitárias impressas em 3D) e softwares de arquitetura, como o AutoCAD. A etapa de obra exige uma equipe mínima formada por um engenheiro responsável técnico pelo gerenciamento dos serviços, um mestre de obras e um servente. Os materiais variam conforme o tipo de intervenção, mas geralmente incluem revestimentos cerâmicos, tintas, tubos e conexões hidráulicas, argamassas, impermeabilizantes, portas e janelas, louças sanitárias e acessórios de acessibilidade.
Resultados Alcançados
Desde 2021, o Mãe Luiza Acessível tem transformado a vida de famílias que convivem com a deficiência em condições precárias de moradia. Foram elaborados 40 projetos e executadas 31 obras de reforma, beneficiando diretamente 41 famílias e cerca de 120 pessoas da comunidade. Cada intervenção representa uma conquista cotidiana — um banho tomado com segurança, uma cozinha acessível, um quarto que volta a ser habitável, uma casa que se torna, de fato, um lugar de acolhimento e autonomia.
Os relatos das famílias expressam o alcance real da iniciativa: pessoas que antes dependiam de outros para tarefas simples agora recuperaram parte essencial de sua independência. Em muitos casos, a adaptação do banheiro significou não apenas um espaço funcional, mas a restauração da dignidade e da autoestima. O ambiente doméstico se torna um território de inclusão, não mais de exclusão.
A assessoria também tem fortalecido laços comunitários e gerado oportunidades. Ao priorizar a contratação de trabalhadores e fornecedores locais, a iniciativa movimenta a economia do bairro e multiplica o conhecimento sobre construção acessível. Pedreiros, encanadores e eletricistas aprendem na prática o valor social do seu trabalho — o que amplia suas perspectivas profissionais e o senso de pertencimento.
Mais de 40 profissionais e estudantes de Arquitetura e Urbanismo participaram da experiência, aprendendo a projetar com empatia e a ouvir quem raramente é ouvido. O processo de escuta e participação das famílias — com maquetes táteis, visitas e conversas — transformou a forma de fazer arquitetura, tornando-a uma ferramenta de cuidado e cidadania.
O reconhecimento da iniciativa por meio de prêmios e editais do CAU/BR, CAU/RN, FNA e IAB reforça a relevância dessa trajetória, que agora inspira novas ações e políticas públicas. Mais que um projeto de obras, o Mãe Luiza Acessível se consolidou como uma rede de solidariedade e aprendizado coletivo — um exemplo de como o direito à moradia pode ser construído com técnica, diálogo e afeto. Esses resultados reforçam que o caminho da transformação social passa, antes de tudo, por ouvir e construir junto.
Público atendido
Portadores de Deficiência
Famílias de Baixa Renda
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