Objetivo
Promover uma proposta pedagógica integrada que valorize o território, os sujeitos do campo e os saberes populares, articulando o currículo escolar às Matrizes Formativas da Educação do Campo.
Problema Solucionado
O Centro de Ensino Fundamental Tamanduá (CEFTAM) está situado em uma região rural do DF marcada por vulnerabilidade social, dispersão geográfica e baixa oferta de equipamentos culturais e tecnológicos. A insegurança alimentar, que atinge 29,76% das áreas rurais (PDAD/Rural 2022), impacta diretamente o rendimento escolar e as oportunidades de aprendizagem.
Neste contexto, o problema estrutural é o distanciamento entre o currículo formal e a realidade camponesa, resultando na fragilização da identidade dos estudantes e em dificuldades pedagógicas acumuladas. Havia baixa participação das famílias (devido às dinâmicas do trabalho rural) e a ausência de práticas sistematizadas que valorizassem os saberes populares, a memória local e as lutas sociais do campo.
A iniciativa Inventário: Território Ponte Alta Sul do Gama surge para responder a esse problema real e recorrente: a necessidade de uma educação que dialogue com os sujeitos do campo, enfrente desigualdades históricas e construa uma ponte forte entre escola, família e cultura.
A tecnologia social responde a um problema real e recorrente: a necessidade de uma educação que dialogue com os sujeitos do campo e enfrente desigualdades.
Descrição
A Tecnologia Social "Inventário: Território Ponte Alta Sul do Gama" é uma solução pedagógica inovadora e replicável, desenvolvida para reverter a descaracterização do sujeito camponês, enfrentar desigualdades históricas e combater o distanciamento curricular no CEF Tamanduá. Basea-se na cocriação (interação com a comunidade), geração de mudanças duradouras (efetividade) e estruturada como um manual adaptável (reaplicabilidade).
Sua metodologia é um ciclo contínuo de pesquisa, aplicação e avaliação, centrado na Educação do Campo. O processo se divide em três fases essenciais:
FASE 1: CONSTRUÇÃO E COLETA DE DADOS – INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE
O objetivo é a cocriação e o protagonismo estudantil na construção do Inventário Histórico, Social, Cultural e Ambiental (Inventário CEFTAM).
1. Mapeamento Territorial e Logístico: A equipe docente mapeia a comunidade utilizando os Pontos de Referência Comunitários (os mesmos usados nas rotas de transporte escolar). Os estudantes localizam suas moradias por esses pontos, estabelecendo a conexão formal entre escola e território.
2. Elaboração Coletiva do Roteiro: Professores, gestão e estudantes constroem o roteiro de entrevistas. As perguntas-chave buscam resgatar a memória histórica, as lutas sociais, os modos de vida, a relação com a terra e os recursos naturais (ex.: origem da comunidade, posse da terra, atividades culturais).
3. Coleta de Campo e Protagonismo: Docentes, divididos por território, auxiliam os alunos a realizar pesquisas in loco com pais e personalidades locais. Os estudantes coletam relatos orais, fotos e vídeos, atuando como pesquisadores sociais e incorporando os saberes populares no processo educativo.
FASE 2: SISTEMATIZAÇÃO E VALIDAÇÃO – EFETIVIDADE E SUSTENTABILIDADE
Esta fase transforma os dados brutos em um documento institucional, garantindo a efetividade e a sustentabilidade da metodologia.
4. Curadoria e Sistematização Inicial: Um professor responsável realiza a curadoria dos dados, transformando os relatos do roteiro em texto discursivo.
5. Validação Comunitária: A comunidade é convocada para uma reunião de pais, onde as fotos e os dados de cada localidade visitada são apresentados. Este passo fundamental garante o reconhecimento mútuo e a validação social da pesquisa.
6. Institucionalização e Linha do Tempo: A pesquisa de campo é cruzada com documentos históricos da escola (atas, fotografias), traçando uma Linha do Tempo Contextualizada. O Inventário é finalizado e aprovado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), tornando-se documento oficial e orientador para a construção anual do Projeto Político-Pedagógico (PPP). A institucionalização garante a durabilidade da TS.
FASE 3: APLICAÇÃO E CICLO CONTÍNUO – REPLICABILIDADE E PARCERIA
O Inventário se torna a ferramenta pedagógica que garante a replicabilidade nos sucessíveis anos letivos e em outros contextos, pautada no cuidado ambiental e no protagonismo social.
7. Integração Curricular e Planejamento Coletivo: O Inventário é o elemento principal para a aplicação do Currículo em Movimento da SEEDF, orientando a divisão dos conteúdos bimestrais. É exigido um trabalho coletivo e multidisciplinar entre todas as áreas do conhecimento (Linguagens, Ciências, etc.).
8. Aplicações via Matrizes Formativas: O ano letivo é estruturado em quatro eixos que facilitam a adaptação e replicação da metodologia em outras escolas do campo: Identidade e Território, Cultura Popular, Meio Ambiente e Lutas Sociais. As aulas são desenvolvidas a partir de perguntas geradoras que os estudantes levam para suas moradias, garantindo a integração dos saberes. Os exemplos de atividades incluem: Pesquisa de campo sobre receitas tradicionais, mapeamento de áreas de plantio, investigação de saberes locais sobre chás e práticas de preservação ambiental, identidade e território, cultura popular, lutas sociais.
9. Culminância e Retroalimentação: As pesquisas se materializam em Produtos Finais (Livros Coletivos de Receitas, Murais, Fichários de Plantas, Árvores Temáticas) apresentados à comunidade em culminâncias bimestrais. A cada evento, os novos conhecimentos são registrados, atualizando continuamente o Inventário, garantindo a autogestão e a vitalidade da Tecnologia Social ao longo do tempo.
A iniciativa conta com a parceria da Universidade de Brasília (UnB), focada em inovação e aprimoramento tecnológico. A UnB atua na gestão de recursos para a implementação de um Laboratório Maker na escola. Esta parceria enriquece as vivências da Tecnologia Social, fornecendo materiais e equipamentos que garantem o acesso à tecnologia para os estudantes do campo, integrando o saber camponês com a inovação digital.
A metodologia do Inventário, portanto, não somente resolve o problema inicial, mas também se estabelece como um modelo sistêmico, documentado e institucionalizado, pronto para ser reaplicado por outras escolas rurais do país.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da Tecnologia Social requer uma estrutura baseada na articulação de recursos humanos existentes e insumos para registro e sistematização.
1. Recursos Humanos (Pessoal):
Coordenação Pedagógica: 01 gestor para articular as Matrizes Formativas.
Corpo Docente: Professores das diversas áreas para regência e mediação das pesquisas.
Equipe de Apoio: 01 profissional administrativo para suporte à Caixa Escolar (gestão de PDAF/PDDE).
Parceiros Comunitários: Participação voluntária de agricultores e lideranças para relatos orais.
2. Materiais de Consumo:
Papelaria e Gráfica: Papéis diversos, pastas para portfólios e insumos para a edição e impressão dos Livros Coletivos e do Inventário.
Insumos Agrícolas: Sementes, mudas e ferramentas para a manutenção da Horta Escolar Pedagógica.
Logística de Eventos: Itens para a realização de culminâncias, piqueniques literários e feiras agrícolas comunitárias.
3. Equipamentos e Bens Permanentes:
Tecnologia e Registro: Computador, impressora e dispositivos de captura de áudio/vídeo (smartphones ou câmeras) para documentação das entrevistas e memórias.
Kit Multimídia: Projetor e sistema de som para assembleias e apresentações dos resultados.
Espaço Maker: Ferramentas básicas para construção de maquetes e protótipos territoriais.
A TS é de baixo custo, utilizando a infraestrutura escolar prévia e otimizando recursos públicos para a produção de conhecimento autogestionado.
Resultados Alcançados
O acompanhamento da Tecnologia Social "Inventário: Território da Ponte Alta Sul do Gama" ocorre de forma contínua por meio de reuniões pedagógicas bimestrais, análise de portfólios e atualização do Inventário CEFTAM. Os resultados apontam:
1. Impacto Quantitativo e Abrangência Social:
• Público Direto: 321 estudantes (Educação Infantil ao 9º ano) e 45 funcionários da instituição.
• Alcance Comunitário: Impacto indireto em aproximadamente 1.124 pessoas (famílias rurais), fortalecendo a rede de proteção em um território onde a insegurança alimentar atinge 29,76% (PDAD 2022).
• Integração da Horta Escolar e o resgate de saberes sobre plantas medicinais, atuando na melhoria da segurança alimentar e saúde local.
2. Institucionalização e Validação Técnica
A metodologia tornou-se uma prática permanente e reconhecida:
• O Inventário foi aprovado pela SEEDF como documento oficial orientador do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola, garantindo perenidade.
• Recebeu Moção Honrosa (Câmara Legislativa do DF), foi objeto de Dissertação de Mestrado e artigos científicos, além de publicações no programa MEC Escola da Terra.
3. Produtos Técnicos e Protagonismo Estudantil
A investigação de campo pelos estudantes-pesquisadores gerou entregas concretas para a comunidade:
• Diante da escassez de dados digitais da zona rural, os alunos criaram um mapa geográfico político-social inédito, delimitando as zonas de atuação e características do território.
• A realização da Feira de Exposição Agrícola (com produção da horta escolar) resgatou a tradição de feiras locais, promovendo a integração entre famílias e produtores.
• Produção do Livro de Receitas e da Árvore dos Chás, sistematizando o conhecimento de agricultura familiar e tradição alimentar em piqueniques literários.
• A Oficina de Jogos e Brincadeiras resgatou práticas cotidianas de integração social e lazer próprias da cultura camponesa.
• Elaboração de uma Carta Aberta à Associação de Moradores (AMPPA), propondo intervenções ao poder público sobre o descarte correto de resíduos e proteção ambiental da região.
Estes resultados comprovam que a TS transforma o estudante em pesquisador da sua realidade, promovendo a autogestão do conhecimento, o sucesso escolar (vencendo competições como Olimgama e Cross do Cerrado) e a emancipação social.
Público atendido
Agricultores Familiares
Alunos do Ensino Básico
Alunos do Ensino Fundamental
Professores do Ensino Básico
Professores do Ensino Fundamental
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