Objetivo
Implementar, desenvolver e difundir a transição agroecológica de famílias agricultoras cooperadas, conduzidas por mulheres, por meio do fortalecimento e da ampliação da metodologia COMUNA, que integra pessoas do campo e da cidade em mutirões participativos voltados à regeneração do Cerrado, à produção sustentável, à aplicação de conhecimentos técnicos e à valorização dos saberes locais.
Problema Solucionado
A Tecnologia Social COMUNA surgiu em resposta a um conjunto de problemas presentes em territórios rurais de reforma agrária, como a degradação do solo decorrente de modelos agrícolas convencionais, a dificuldade de implementação de práticas agroecológicas de forma coletiva e continuada, a baixa valorização dos saberes locais e o limitado protagonismo das mulheres agricultoras nos processos produtivos e decisórios. Soma-se a isso a crescente demanda das escolas públicas por alimentos saudáveis, produzidos sem o uso de agrotóxicos, e o distanciamento entre a população urbana e os modos de vida no campo.
Nesse contexto, o COMUNA se configura como uma Tecnologia Social aplicável em territórios que necessitam de regeneração ambiental, fortalecimento da agricultura familiar e promoção da transição agroecológica, articulando mutirões participativos que integram pessoas do campo e da cidade, valorizam os saberes locais e fortalecem a autonomia das mulheres agricultoras.
Descrição
O Coletivo Mutirão na Agrofloresta (COMUNA) é uma iniciativa construída a partir da atuação da Coopersafra junto a famílias agricultoras da reforma agrária no município de Uberlândia, com foco na transição agroecológica, na regeneração do Cerrado e no fortalecimento do protagonismo das mulheres no campo. Ao longo de cinco anos de trajetória, o coletivo vem desenvolvendo ações formativas, mutirões agroecológicos e articulações entre campo e cidade, consolidando uma prática social baseada na cooperação, na troca de saberes e na participação comunitária.
O COMUNA organiza-se em um sistema de equipes. Cada equipe deve contar com um núcleo base composto por, no mínimo, sete (7) pessoas, não havendo limite máximo de participantes.
O núcleo base é formado por: uma família ativa no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), que disponibilize no mínimo 1000 m² de terreno para a transição agroecológica; um(a) assistente técnico(a) de extensão rural (ATER); um(a) gestor(a) de equipe (Gee); um(a) agente de mobilização urbana (Amu) e, preferencialmente, três pessoas voluntárias.
No caso das famílias agricultoras, dá-se preferência àquelas assentadas da reforma agrária e/ou àquelas em que as mulheres estejam à frente do CAF. Inicialmente, visando fortalecer o compromisso participativo com a transição agroecológica e permitir a constituição de um novo núcleo base, é importante que a família interessada em integrar o mutirão participe do projeto, como voluntária, por no mínimo três meses, antes que seu sítio passe a compor o mapa de regeneração.
Quando integrada ao COMUNA, a família agricultora contará com: um projeto de transição agroecológica elaborado em conjunto com a equipe responsável; no mínimo um mutirão mensal no terreno disponibilizado; e o recebimento de equipamentos e benfeitorias provenientes de recursos obtidos por meio de editais nos quais o COMUNA venha a ser contemplado.
Em contrapartida, espera-se que a família agricultora integrada ao COMUNA demonstre: proatividade na elaboração e condução do projeto de transição agroecológica, tanto nos dias de mutirão quanto no cotidiano; disposição para o acolhimento e o bom convívio com a equipe e com as demais pessoas voluntárias do COMUNA; oferecimento de café da manhã e almoço no dia agendado para o mutirão; e participação nos mutirões realizados em outros sítios de famílias envolvidas.
As pessoas ATER devem possuir a formação mínima exigida pela regulamentação vigente para o exercício da assistência técnica e extensão rural, incluindo habilitações formais e competências compatíveis com as demandas da agroecologia. As pessoas ATER que, voluntariamente, passam a integrar o núcleo base de uma equipe do COMUNA devem ter apresentado anteriormente envolvimento participativo e contínuo nos mutirões e comprometer-se a produzir e conduzir, junto à família agricultora, o projeto de transição agroecológica.
As pessoas gestoras de equipe (Gee) devem ter um histórico de voluntariado e se comprometerem a acompanhar os processos da equipe, contribuindo para a realização dos mutirões, a condução do projeto de transição agroecológica, a atualização dos dados relativos à expansão agroflorestal do sítio e a gestão do acervo de registros produzidos ao longo do processo.
As pessoas agentes de mobilização (Amu) também devem ter um histórico de voluntariado e se comprometerem a mobilizar outras famílias agricultoras para aderirem à transição agroecológica e a convidar pessoas da cidade, por meio de diversos canais de comunicação, a participarem como voluntárias dos mutirões.
As pessoas voluntárias são aquelas que solicitaram integrar as redes sociais do coletivo destinadas à divulgação de convites para participação nos mutirões. Espera-se das pessoas voluntárias uma conduta respeitosa e responsável com todas as outras pessoas envolvidas, em todas as suas diversidades.
A interação e o impacto positivo da metodologia COMUNA podem ser observados na realização periódica de mutirões agroflorestais, na adesão contínua de famílias agricultoras ao processo de transição agroecológica e no envolvimento recorrente de pessoas da cidade como voluntárias. Atualmente, a metodologia envolve cinco sítios em processo de transição agroecológica.
Entre os principais indicadores estão: a frequência mensal dos mutirões; a ampliação das áreas destinadas a sistemas agroflorestais; o aumento da diversidade de espécies cultivadas; o fortalecimento da autonomia das mulheres agricultoras na condução dos sítios; e a consolidação de redes de cooperação entre campo e cidade. Como evidências de impacto produtivo e social, os alimentos produzidos sem o uso de agrotóxicos abastecem integralmente a rede de escolas municipais e parcialmente a rede de escolas estaduais de Uberlândia, além de serem comercializados em feiras agroecológicas realizadas na área comum da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Esses elementos evidenciam o potencial replicável e transformador da Tecnologia Social.
Recursos Necessários
Para a implantação inicial, estima-se, minimamente, equipe de: (i) pelo menos uma pessoa com experiência em agroecologia e sistemas agroflorestais, responsável pelo planejamento, condução técnica e acompanhamento das atividades; (ii) uma pessoa dedicada a gestão dos recursos digitais para acompanhamento do processo; (iii) uma pessoa dedicada à articulação comunitária e mobilização de pessoas voluntárias; e (iv) apoio recorrente de pessoas voluntárias, com média de 7 a 12 participantes por mutirão, podendo esse número variar conforme o calendário e as parcerias locais. A participação direta das famílias agricultoras é condição central para a efetivação da unidade. É necessário carro(s) para transporte de pessoal até o local da agrofloresta.
São necessários insumos básicos para a implantação e manejo agroflorestal, tais como: sementes e mudas de espécies nativas, frutíferas e agrícolas; adubos orgânicos e materiais para compostagem; além de alimentos para a preparação das refeições coletivas.
Os equipamentos demandados são, em sua maioria, de baixo custo e uso compartilhado, como enxadas, facões, cavadeiras, tesouras de poda. Além de mangueiras e bomba d’água para instalação de sistema de irrigação, carrinhos de mão, além de equipamentos de proteção individual. Para o acompanhamento e registro das atividades, são úteis aparelhos celulares para registro audiovisual e um notebook para preenchimento dos formulários de acompanhamento, atualização dos projetos e plantas.
Resultados Alcançados
Atualmente, o coletivo atende diretamente cinco (5) famílias agricultoras. No início da implantação da tecnologia, o projeto contava com apenas uma família, o que representa um crescimento de 400% no número de famílias envolvidas. Cada família destinou cerca de um hectare de seus sítios para a transição agroecológica, totalizando cinco (5) hectares em processo de conversão. Deste total, aproximadamente 20% da área já se encontra regenerada e florestada, evidenciando resultados concretos na recuperação ambiental e na consolidação dos sistemas agroflorestais.
A participação de pessoas da cidade também cresceu de forma significativa ao longo do tempo. Atualmente, os mutirões contam com uma média de doze (12) pessoas voluntárias de presença contínua, entre cerca de dezoito (18) participantes semanais. Em ações comemorativas ou realizadas em parceria com outros projetos socioculturais, os mutirões já reuniram aproximadamente noventa (90) pessoas voluntárias, ampliando expressivamente o alcance social da tecnologia.
Observam-se impactos qualitativos relevantes, expressos nas percepções, sentimentos e avaliações das pessoas participantes. Durante os encontros, emergem falas que evidenciam tanto a transformação do território quanto das subjetividades envolvidas. Entre elas, destacam-se expressões como “a floresta está indo para cima da minha casa”, que revela o encantamento diante da regeneração de áreas antes degradadas, e “a natureza não está fora de mim, a natureza está dentro, eu sou a natureza”, indicando um reconhecimento de pertencimento e integração com o ambiente. Outros relatos apontam o mutirão como espaço de cuidado e liberdade, onde “pode-se fazer comida, manejo, plantio ou até ficar deitado, mas que se faça com amor”, reforçando a dimensão afetiva e não produtivista do processo.
O acompanhamento dos resultados ocorre de forma contínua durante a realização dos mutirões. Os momentos de refeição coletiva e de diálogo após as atividades constituem espaços sistemáticos de escuta, nos quais as pessoas manifestam espontaneamente suas percepções e avaliações. Complementarmente, de maneira eventual, participantes são convidadas(os) a responder formulários avaliativos, possibilitando a sistematização dos retornos e contribuindo para o monitoramento dos impactos da tecnologia e para a reflexão permanente sobre a identidade e o aprimoramento das práticas do coletivo.
Público atendido
Agricultores Familiares
Assentados Rurais
Jovens
Alunos do Ensino Superior
Alunos do Ensino Básico
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