Objetivo
Desenvolver e consolidar soluções simples, coletivas e de baixo custo, criadas com as/os catadoras/es, integrando reciclagem popular, compostagem e economia solidária para enfrentar desafios sociais, ambientais e econômicos. Promover transformação duradoura, geração de renda, autonomia, inclusão e sustentabilidade, colocando as pessoas e seus saberes no centro da tecnologia social.
Problema Solucionado
A criação da Tecnologia Social Unicca – Território Vivo nasce diante de um conjunto de problemas estruturais que atravessam a vida das/os catadoras/es e dos territórios populares: a precarização histórica do trabalho de reciclagem, a falta de reconhecimento social, a baixa remuneração, a ausência de políticas consistentes de manejo de resíduos e a desvalorização dos saberes produzidos pelas comunidades que sustentam 90% da reciclagem no Brasil. Soma-se a isso a inexistência de modelos públicos integrados que articulem reciclagem, compostagem, economia local e circular, gerando desperdício de materiais, poluição, insegurança alimentar e perda de renda.
A tecnologia pode ser implantada em territórios onde há acúmulo de resíduos, ausência de coleta seletiva estruturada, fragilidade econômica das famílias, inexistência de políticas de compras solidárias, descontinuidade contratual com catadoras/es e baixa participação comunitária. Nessas situações, a Unicca – Território Vivo oferece um modelo de organização autogestionária capaz de fortalecer a economia local, gerar renda, estruturar contratos, ampliar práticas ambientais e transformar resíduos em valor social, econômico e sustentável.
Descrição
A sistematização da Tecnologia Social Unicca – Território Vivo parte da trajetória histórica da Cooperativa Unicca, criada a partir da organização das/os catadoras/es de Cruz Alta, que há décadas atuavam de forma fragmentada, sem reconhecimento público, enfrentando precarização, ausência de renda estável e falta de políticas integradas para a gestão dos resíduos. A formação da Unicca resultou de um processo coletivo de mobilização social, impulsionado pela necessidade de superar condições de vulnerabilidade e construir, desde o território, um modelo de trabalho digno, sustentável e autogestionado. Ao longo dos anos, a cooperativa consolidou práticas de economia solidária, educação ambiental, reciclagem popular e defesa de direitos, tornando-se referência local e regional na articulação de ações que combinam geração de renda, cuidado ambiental e fortalecimento da comunidade.
A metodologia de implantação da Tecnologia Social se estrutura em quatro eixos integrados: organização comunitária, formação sociotécnica, estruturação produtiva e fortalecimento da economia circular e local. O primeiro eixo envolve reuniões abertas, assembleias e rodas de conversa que definem regras, responsabilidades e prioridades coletivas. A autogestão é o princípio norteador: todas as decisões — distribuição de tarefas, gestão financeira, parcerias, contratos, metas de produção e estratégias de expansão — são tomadas de forma participativa, garantindo que cada pessoa tenha voz ativa no processo. Esse método fortalece vínculos e cria uma cultura de corresponsabilidade, indispensável para a permanência e o crescimento da tecnologia social.
No eixo de formação sociotécnica, a Unicca desenvolve processos contínuos de qualificação, abordando temas como triagem, compostagem, compras solidárias, logística interna, segurança no trabalho, educação ambiental, economia circular, gestão administrativa e comunicação comunitária. Essas formações são construídas a partir das experiências e saberes das/os próprias/os catadoras/es, valorizando conhecimentos locais e promovendo a apropriação coletiva das tecnologias implementadas. As atividades formativas ocorrem em oficinas, encontros comunitários, mutirões e atividades práticas no galpão, estimulando o aprendizado colaborativo.
O eixo de estruturação produtiva envolve a organização do galpão, o uso de equipamentos adequados, a implantação de fluxos de trabalho que integram reciclagem, compostagem e reaproveitamento de materiais, além da definição de procedimentos operacionais que asseguram qualidade, transparência e rastreabilidade. A metodologia prevê também a criação de mecanismos de registro de dados — volume de recicláveis, materiais compostados, quantidade de resíduos desviados do aterro, renda gerada e número de famílias beneficiadas — permitindo o monitoramento contínuo do impacto.
A participação da comunidade acontece em todas as etapas. Moradoras e moradores contribuem na separação correta dos resíduos, participam de campanhas educativas, projetos de compostagem e iniciativas de economia local. A comunidade também integra processos deliberativos, especialmente quando a tecnologia interfere diretamente na organização do território, como na criação de pontos de entrega voluntária, hortas comunitárias compostadas, feiras de economia solidária e mutirões de limpeza. A interação entre a Unicca e o território se dá de forma permanente por meio de visitas, formação ambiental nas escolas, reuniões nos bairros, participação em conselhos e parcerias com instituições públicas, universidades e movimentos sociais.
As evidências do impacto positivo aparecem em diferentes dimensões. No campo ambiental, a cooperativa aumentou o volume de resíduos reciclados e compostados, reduziu significativamente o envio de materiais ao aterro e ampliou práticas de reaproveitamento que fortalecem a economia circular. No campo econômico, a renda das/os catadoras/es tornou-se mais estável, os contratos de prestação de serviços garantem segurança jurídica e financeira, e as compras solidárias fortalecem a economia local. No campo social, há ampliação da autoestima, protagonismo e reconhecimento das/os catadoras/es enquanto agentes ambientais, educadoras/es populares e produtoras/es de conhecimento. Indicadores como número crescente de famílias envolvidas, aumento da participação comunitária nas formações, expansão das parcerias institucionais e melhoria das condições de trabalho comprovam a efetividade da tecnologia.
Assim, a sistematização da Unicca – Território Vivo demonstra que a tecnologia social nasce do território, se desenvolve por meio da participação comunitária e gera impactos mensuráveis e transformadores, combinando sustentabilidade, justiça social, produção do comum e fortalecimento da economia local.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da Tecnologia Social Unicca – Território Vivo exige recursos materiais, humanos e estruturais organizados de forma integrada. Em termos de pessoal, é necessária uma equipe de aproximadamente 70 catadoras/es, incluindo funções de triagem, compostagem, pesagem, motorista, formação comunitária e coordenação autogestionária. Também é importante contar com apoio técnico para capacitações em segurança, gestão, educação ambiental e economia solidária.
No âmbito estrutural, 4 galpões de 200 a 300 m² com pontos de energia e água e área externa para compostagem. Entre os equipamentos, são essenciais 4 caminhões de médio porte, 8 prensas, 4 esteiras de triagem, EPIs, 4 balanças, 4 empilhadeiras de fardos, 400 big bags, 200 bombonas, triturador ou picador de resíduos orgânicos e ferramentas de jardinagem.
Nos recursos operacionais, são necessários materiais educativos, computadores para registro de dados, softwares simples de gestão, uniformes e itens de manutenção. A implantação envolve ainda insumos para atividades comunitárias, como cartazes, folders e materiais para oficinas. Esses recursos permitem que a tecnologia funcione de forma autônoma, segura, sustentável e articulada ao território.
Resultados Alcançados
A implantação da Tecnologia Social Unicca – Território Vivo gerou resultados significativos, tanto quantitativos quanto qualitativos, acompanhados por meio de registros internos, planilhas mensais de produção, atas de assembleias, relatos das/os catadoras/es, avaliações coletivas e monitoramento contínuo das ações no território, aos quais são relatados diariamente nas redes sociais, mensalmente em relatórios para prefeitura e anual na Câmara dos Vereadores. Diretamente, a tecnologia atende aproximadamente 80 famílias de catadoras/es envolvidas/os nas atividades de triagem, compostagem, educação ambiental, campanhas comunitárias e ações de economia local. Indiretamente, mais de 50.000 pessoas e 120 grandes geradores, por meio da coleta seletiva solidária, campanhas educativas, formação ambiental, pontos de entrega voluntária e iniciativas de compostagem doméstica.
Entre os resultados quantitativos, destaca-se o aumento médio de 240% no volume de materiais recicláveis processados mensalmente, atingindo o índice de 27% de reciclagem, o maior do Brasil, a implantação de um sistema de compostagem que reaproveita cerca de 10 toneladas mensais de resíduos orgânicos e a redução estimada de 25% do envio de resíduos domiciliares ao aterro. As compras solidárias estruturadas pela cooperativa ampliaram a circulação de renda dentro do próprio território, fortalecendo a economia local. A formalização de contratos de prestação de serviços garantiu estabilidade financeira e ampliou a capacidade de negociação da cooperativa com instituições públicas e privadas.
Os resultados qualitativos revelam avanços ainda mais profundos. As/os catadoras/es relatam aumento da autoestima, sentimento de pertencimento, fortalecimento da identidade coletiva e maior reconhecimento social enquanto catadoras/es e agentes ambientais, além de um aumento de renda de 300%, partindo de meio salário mínimo para atuais dois salários mínimos mensais, aumento de . As avaliações internas apontam melhorias na organização do trabalho, na segurança, na autonomia e na capacidade de planejar ações de forma autogestionária. A comunidade demonstra maior conscientização ambiental, engajamento nas práticas de separação correta e participação crescente nas atividades promovidas pela Unicca.
A soma desses resultados demonstra que a tecnologia social não apenas melhora indicadores ambientais e econômicos, mas transforma relações, produz cidadania e fortalece redes locais de solidariedade e sustentabilidade.
Público atendido
Catadores de Material Reciclável
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