Objetivo
A proposta da tecnologia é diminuir o tempo de resposta a incêndios florestais, a partir de mensagens com a localização da ocorrência, além de otimizar as ações de Manejo Integrado do Fogo de forma simples, acessível e escalável. Ela integra análise geoespacial, capacitações e equipamentos, com o objetivo final de reduzir as áreas queimadas no Cerrado.
Problema Solucionado
Ocorrem mais de 140 mil focos de incêndios florestais no Brasil por ano, ao mesmo tempo que o Brasil é campeão em desmatamento, como mais de 1.2 milhões de hectares desmatados no último ano. Esses dois problemas são ainda mais graves no bioma Cerrado, que foi por dois anos consecutivos o bioma mais desmatado e com mais da metade dos incêndios em 2024. Em contrapartida não há brigadas, técnicos de geoprocessamento e agentes suficientes para ações de combate e prevenção. Neste cenário torna-se imprescindível otimizar os recursos para que especialmente se reduza o tempo de resposta e assim evitando que os incêndios e desmatamentos tomem proporções incontroláveis. Antes do Suindara, a informação sobre um incêndio era comumente repassada de boca a boca, o que levava tempo e gerava imprecisão. Mas com o Suindara os alertas são repassados aos brigadistas e gestores imediatamente após a detecção pelos satélites. Ao abrir a mensagem vem um mapa interativo com o ponto do incêndio, e demais elementos necessários para planejar a ação. Segundo pesquisa feita com os usuários, o Suindara acelera a resposta em 6 horas, o que significa 6 horas a menos de fogo destruindo o Cerrado.
Descrição
O Suindara é estruturado a partir de dois componentes complementares: um computacional, responsável pelo sistema de alertas e envio de informações, e um social, voltado ao engajamento, à capacitação e ao apoio com equipamentos. O Instituto Cerrados atua há anos junto a diferentes comunidades — em alguns territórios há mais de 14 anos, como Pirenópolis, e em outros há cerca de 6 anos, como Chapada dos Veadeiros, Quilombo Kalunga e Moinho — promovendo ações de impacto ambiental positivo, contexto no qual o Suindara foi incorporado como tecnologia social.
A parte computacional é, de maneira resumida, um sistema de processamento e gerenciamento de dados geoespaciais hospedado em nuvem, que coleta dados de satélites, processa e repassa os dados tratados aos usuários. Um alerta de incêndio é emitido quando, em um pixel de uma imagem de satélite, é detectada uma alteração de temperatura ou reflectância em comprimentos de onda como o infravermelho. Cada satélite tem uma álgebra específica que indica que a alteração percebida é fogo. Para detecção de focos de calor, usamos dados da NASA e do INPE, de uma constelação de 11 satélites. De forma análoga, são detectados os casos de desmatamento; nesse caso, coletamos dados de alerta do Sistema DETER, do INPE, que se baseia em imagens de satélite de alta e média resolução espacial. Além dos alertas, fornecemos mapa de combustível (material inflamável), sistema de navegação, mapa de localidades, sistema de registro de ocorrências, entre outras funcionalidades elaboradas juntamente à comunidade de usuários.
Os alertas são selecionados de acordo com o território e direcionados para os agentes envolvidos na ação. Isso faz com que não seja mais necessário ter um técnico de geoprocessamento monitorando e processando dados para identificar um alerta — ele chega simultaneamente a todas as pessoas responsáveis, de forma passiva, prática e independente de grandes manutenções, o que diminui seus custos. Cabe ressaltar que a efetividade da mitigação dos focos de calor depende diretamente da capacidade de resposta dos agentes locais; por isso, construímos juntamente aos agentes um Plano de Sinergia/Operativo que organiza reações do grupo ao fogo, bem como ações de prevenção.
Realizamos dezenas de oficinas junto às comunidades de usuários para, juntamente com elas, alinhar o uso da ferramenta; construir planos de combate e prevenção; capacitar brigadistas; e formar novas brigadas. Participaram desse trabalho centenas de pessoas, de diferentes perfis, entre elas quilombolas, brigadistas voluntários, brigadistas de organizações oficiais, bombeiros e agentes de secretarias de meio ambiente, entre outros. As atividades em grupo foram desenhadas em formato de troca de experiências, em que todos trazem seus aprendizados e recebem ensinamentos dos pares. Nessa dinâmica, utilizamos salvaguardas sociais que orientam nosso trabalho: a escuta inicial (1), a elaboração inclusiva (2), o retorno/feedback (3) e o acompanhamento quando possível (4). Os comunitários são os principais agentes que influenciam as melhorias do sistema, e os aprimoramentos são elaborados com base em seu entendimento de campo.
Os territórios a serem monitorados são aqueles nos quais o Instituto Cerrados desenvolveu parcerias locais e onde os agentes solicitaram a implementação do Sistema. Esses territórios geralmente têm áreas protegidas — sejam Unidades de Conservação ou territórios tradicionais, como Quilombos — e possuem colegiados envolvidos com a gestão do fogo. Primeiramente, é feita uma avaliação das necessidades do grupo no território; nessa ocasião, identificamos como serão realizadas as capacitações, as codificações de combate e monitoramento, a forma de gestão e os objetivos. Após essa etapa, iniciamos o embarque dos usuários no Sistema Suindara, e eles passam a receber os alertas e utilizar as demais funcionalidades. A partir desse momento, a comunidade de usuários começa a dar feedbacks sobre a ferramenta, e novas funcionalidades e ajustes são elaborados para fases futuras. Posteriormente, avaliamos os resultados, verificando a redução da área queimada e eventuais melhorias de abordagem.
Com isso, o Suindara vem sendo construído, desde 2022, de forma participativa junto às comunidades que convivem com o fogo. Em cerca de 11 oficinas presenciais, contamos com aproximadamente 217 participantes: brigadistas, comunidades tradicionais e gestores públicos. Essa troca é fundamental para a construção da tecnologia, seu aprimoramento e elaboração de planos operativos participativos de prevenção e combate a incêndios. Essa metodologia fortalece a gestão junto a comunidade, como relatou um participante após uma oficina: “Foi o primeiro passo para a elaboração de um plano operativo participativo, com ações concretas dentro da realidade do território”.
Recursos Necessários
Aqui entendemos como unidade tecnológica a implementação da iniciativa Suindara com o embarque de um usuário em um território. Como a tecnologia é mantida pelo Instituto Cerrados (IC), os investimentos são de ordem logística, capacitações e equipamentos. Os restantes dos custos são internalizados nos custos padrão do Suindara dentro do IC. Portanto, é necessário um local para as reuniões e capacitações, quando não são online, é necessário internet, alimentação e apoio de transporte para todos os participantes. Geralmente vão duas ou três pessoas do IC para as oficinas, levando um notebook e um datashow. O espaço precisa de cadeiras ou bancos, energia elétrica e internet. Geralmente servimos um lanche, ou mais refeições quando o treinamento dura mais tempo. Entre os encontros o contato é feito por whatsapp e email.
Já a manutenção do Sistema Suindara, depende da hospedagem em nuvem (AWS), serviço de envio de sms, técnico em banco de dados, técnico em front-end, e ao menos um técnico de campo especialista em fogo, além de parte do tempo da gerência e direção.
Resultados Alcançados
Os resultados quantitativos indicam impactos territoriais relevantes, atingindo o objetivo principal de redução da área queimada no Cerrado. Em 2022 houve redução superior a 26 mil hectares de área queimada na APA do Pouso Alto e no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o que corresponde a diminuição de 17% de vegetação nativa atingida por incêndios em comparação à média dos três anos anteriores. Neste ano de 2022, considerando todos os territórios cadastrados no sistema, estima-se que o fogo evitado tenha alcançado 201.923,62 ha e em 2023 162.448,92 ha.
Em termos de escala territorial, a área monitorada evoluiu de 893 hectares em 2022 para aproximadamente 2,1 milhões de hectares em 2025, um aumento superior a 235 mil por cento, evidenciando a rápida escalabilidade da tecnologia social. Atualmente contamos com 273 usuários embarcados em 60 territórios.
Os resultados qualitativos reforçam os indicadores quantitativos e evidenciam a sinergia entre a tecnologia e os agentes territoriais. Desde 2022, a implantação da tecnologia social Suindara atendeu presencialmente cerca de 217 pessoas, mobilizadas ao longo de aproximadamente 11 oficinas, envolvendo brigadistas, voluntários, comunidades tradicionais, gestores de Unidades de Conservação e técnicos de órgãos ambientais em diferentes territórios do Cerrado. Para além das oficinas, o Instituto Cerrados articulou, em parceria com atores qualificados, a capacitação de mais de 10 voluntários de diferentes brigadas, contribuindo para sua formação como brigadista.
Os feedbacks das oficinas indicam alto nível de interesse e engajamento dos participantes, com adesão expressiva ao embarque no sistema e demanda concreta por capacitação, especialmente para a formação de brigadas voluntárias locais. As comunidades demonstraram preocupação recorrente com as queimadas e reconheceram o Suindara como uma ferramenta estratégica para o monitoramento e o combate aos incêndios, redução significativa no tempo de resposta ao combate, contribuição para a organização logística e o planejamento pré-campo das brigadas. Destacou-se a importância das trocas técnicas realizadas durante as oficinas, que permitiram esclarecer dúvidas sobre o manejo do fogo e promover diálogos qualificados, como rodas de conversa sobre queima controlada. Estes dados estão sistematizados em listas de presença, formulários de avaliação qualitativa, relatórios técnicos e análise espacial dos dados.
Público atendido
Lideranças Comunitárias
Povos Tradicionais
Povos Indígenas
Quilombolas
Agricultores Familiares
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