Objetivo
Recuperar áreas de Caatinga em processo de degradação com técnicas e tecnologias apropriadas ao Semiárido e conservar áreas em bom estado para manutenção dos serviços ecossistêmicos e o uso sustentável dos produtos da sociobiodiversidade com participação ativa dos povos da Caatinga para contribuição direta nos processos educativos e práticos para melhor gerenciamento dos bens naturais da Caatinga.
Problema Solucionado
Historicamente a Caatinga foi vista de forma pejorativa, seja pela vegetação, o clima ou as pessoas que habitavam o território. Um conjunto de estereótipos moldou as relações com o espaço físico e a forma de pensar o bioma. Erroneamente tratados como região seca, sem vida, de pessoas pobres e rudes. Esta visão exige uma reconstrução do imaginário coletivo sobre o bioma e as pessoas que o habitam.
Segundo Ministério do Meio Ambiente (2022), aproximadamente 27 milhões de pessoas vivem na região com alta dependência da vegetação nativa para sobrevivência. Além disso, 62% das áreas suscetíveis à desertificação estão em domínio do bioma. Logo, a manutenção da Caatinga em Pé, além de ser estratégica nos processos de mitigação dos efeitos das mudanças do clima são fundamentais para a vida de milhares de brasileiros/as.
O agravamento das condições ambientais, potencializam as vulnerabilidades sociais existentes nos territórios tradicionais. Segundo a Rede MapBiomas (2025), a Caatinga perdeu 8,6 milhões de hectares entre 1985 e 2023. Este avanço do desmatamento pressiona os territórios tradicionais, ameaçando a tradicionalidade, as culturas e o papel de conservação destas comunidades.
Descrição
Devido à diversidade natural da Caatinga, é comum que seja chamado de “as Caatingas”, no plural. Se existe uma diversidade tão grande de cultura, de biodiversidade, de solos, formas de organização e manejo, entre outros aspectos, não caberia uma “receita” ou um “pacote” de ações. A metodologia de Recaatingamento oferece os meios necessários para adequação e/ou organização de processos, dentro de cada realidade, para que as respostas tenham embasamento na realidade local e as respostas estejam ligadas as essas realidades concretas dos territórios no contexto de emergência climática.
A primeira parte da metodologia de Recaatingamento é a identificação do território da comunidade por meio da cartografia social. De forma participativa, as pessoas da comunidade identificam as áreas de importância local, tais como as casas, aguadas, áreas coletivas e identifica a área em maior estado de degradação a ser recuperada. Busca-se também levantar as principais causas da degradação e há quanto tempo houve a mudança na cobertura da terra. Normalmente, os principais problemas são uso do fogo, do desmatamento e da superlotação da taxa animal nas áreas.
Em seguida, é realizado o planejamento coletivo das técnicas a serem desenvolvidas na comunidade. Geralmente são realizadas ações de isolamento da área para evitar o herbivorismo, controle de erosão com curva de nível, escarificação do solo, barramentos de pedra, dispersão de sementes de plantas nativas, cobertura do solo com matéria seca e distribuição de esterco para enriquecimento do solo. Além disso, planta-se mudas e estacas de árvores e arbustos para recomposição vegetal. Essas atividades são feitas em mutirão e a comunidade recebe insumos e equipamentos necessários para desenvolver essas atividades
A segunda parte do Recaatingamento consiste em elaborar um plano de uso e manejo da área coletiva que a comunidade utiliza para pastejo dos animais e para o extrativismo não madeireiro, principalmente frutas. Essa ação consiste em fazer um levantamento da capacidade de suporte animal da área, através de um levantamento da produção de forragem por hectare. Em média um hectare de caatinga suporta um caprino ou ovino por ano sem sofrer impacto. Acima disso a caatinga já está em situação degradante.
Estabelecido a capacidade de suporte, busca-se estabelecer critérios para o uso dessa área: quantidade máxima de animais por família, períodos de repouso da área, outras formas de alimentar os animais fora da área coletiva, manejo sanitário do rebanho, melhoria genética do rebanho sem perder as características dos animais tradicionais.
Essas atividades são desenvolvidas no período de dois anos. Nos anos seguintes a comunidade faz a manutenção da cerca, continua promovendo práticas de regeneração, nas áreas degradadas e avança na consolidação do plano de manejo. Nessas áreas o que se pretende é a recuperação das características semelhantes às do ecossistema original, contribuindo com a manutenção de toda vida existente no bioma.
Com o Recaatingamento, através de espécies nativas da própria região, garantem-se a presença de polinizadores naturais e animais dispersores de sementes, indispensáveis para que as espécies se reproduzam e assim aconteça, de fato, o processo de regeneração natural, que no semiárido é lento, com recuperação inicial a partir de 15 anos.
Para realização dessas atividades de recuperação e conservação, as comunidades recebem as estruturas físicas para produção de banco de forragens, beneficiamento de frutas, de armazenamento de água, de saneamento rural (reuso agrícola), banheiros, criação de abelhas nativas e exóticas e sistemas agroflorestais. Essas iniciativas contribuem para o processo de redução de vulnerabilidade por meio da produção de alimento, redução da poluição ambiental e geração de renda.
As comunidades participam de capacitações sobre temas diversos sobre as potencialidades da Caatinga, cuidados e ameaças, manejo do solo e água, manejo animal e da vegetação nativa, associativismo, gênero e outras temáticas que contribuam com o fortalecimento comunitário. Outra estratégia de formação são os intercâmbios de experiências, onde o conhecimento é construído de agricultor/a para agricultor/a a partir de uma experiência exitosa concreta. Esse elemento pedagógico se configura como ponto importante na valorização do papel das comunidades tradicionais, fortalece a identidade, o protagonismo local e reconhecimento dessas comunidades como prestadoras de serviços ambientais.
Neste sentido, a ação pioneira do Recaatingamento propõe a recuperação e conservação da Caatinga com a presença humana nos territórios com condições dignas de vida. Destacamos que o cuidado com o bioma é uma prática histórica dos povos e comunidades tradicionais. A base de toda a proposta é resgatar e/ou fortalecer o saber tradicional, por isso é uma ação primordialmente de educação ambiental contextualizada.
Recursos Necessários
Para implementação do Recaatingamento é necessário um conjunto de materiais para ações práticas e de formação, como exemplo de materiais de estruturação para implementação viveiros, fogões ecológicos, horas máquina para realização de processos de conservação de solo, pedras para barragens baze zero, estruturas para implementação de cisternas, barreiros, sistemas de tratamento de esgoto e reuso agrícola, materiais para isolamento de área com cerca, entre outras ações.
Como parte de atuação pedagógica, necessita-se de materiai didáticos, folhas, papeis, pinceis, canetas, lapis, trena, corda e materiais de trabalho (enxada, pá, picarete).
Além disso, é nessário os recuros humanos nos processo formativo e prático da aplicação da metodologia, o que pode variar de acordo a realidade local.
Resultados Alcançados
Hoje são 40 Comunidades que realizam Recaatingamento, com recuperação de 2.000 hectares e conservação de mais de 33 mil hectares de Caatinga sobre um plano de manejo sustentável. Um conjunto de tecnologias de captação e armazenamento de água de chuva, saneamento rural, produção agroecológicas como exemplo dos sistemas agroflorestais, beneficiamento de frutas nativas, fogões ecológicos entre outras tecnologias que fortalecem as comunidades.
Em todo o processo de forma direta foram evolvidas mais de 900 famílias. Como parte de construção de tecnologias sociais de Convivência com o Semiárido foram construídas mais de 48 cisternas de produção, 86 cisternas de consumo humano, 25 barreiros trincheiras, aumentando em mais de 16.300 m³ a capacidade de estoque de água das comunidades.
Foram também reformados ou construídos 73 banheiros e 103 sistemas de tratamento de esgoto e reuso agrícola diminuindo o impacto ambiental e de saúde do lançamento de esgoto irregular nas comunidades. Neste aspecto social, foram implementados também 336 fogões ecológicos, sabendo que a matriz energética da lenha é bastante utilizada na região semiárida. Os fogões ecológicos utilizam até 50% menos lenha comparados aos fogões convencionais e reduzem a fumaça dentro da casa, minimizando os riscos de inalação, principalmente por parte das mulheres, que majoritariamente preparam os alimentos e crianças e idosos por estarem em casa durante o uso.
Como forma de produção de alimentos saudáveis para as famílias, produção de forragens para os animais e mudas de espécies nativas, foram construídos 73 sistemas agroflorestais – SAF e 35 viveiros. Essas ações contribuem com a melhoria da estrutura e também com a adoção de práticas mais sustentáveis. Como forma também de acelerar a recuperação das áreas foram construídas mais de 70 barragens base zero nos leitos de riachos, mais de 10 quilômetros de curva de nível ou terraceamento para contenção de erosão.
Essas implementações estruturam as ações da metodologia de Recaatingamento. Como parte fundamental no processo, foram realizados mais de 275 encontros coletivos de formação por meio de curso, oficinas, intercâmbios e seminários. Com isso, as ações práticas e de construção do conhecimento se complementam e potencializam o papel estratégico dos povos e comunidades tradicionais na recuperação e conservação da Caatinga.
Atualmente, as comunidades relatam que o Recaatingamento tem contribuido com o fortalecimento das indentidades do povo Caatingueiro.
Público atendido
Povos Tradicionais
Agricultores Familiares
Assentados Rurais
Gestores Públicos
Mulheres
Quilombolas
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