Objetivo
Promover o acesso equitativo da população surda à saúde mental por meio da disponibilização de uma plataforma digital acessível, que oferece a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) adaptada para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), contribuindo para o rastreio psicológico, a autonomia do usuário e o fortalecimento de práticas de avaliação psicológica inclusiva.
Problema Solucionado
A avaliação psicológica de pessoas surdas no Brasil ainda enfrenta barreiras linguísticas e culturais que dificultam o acesso equitativo à saúde mental. A maioria dos instrumentos psicológicos foi desenvolvida para a população ouvinte, baseada na língua oral e escrita, comprometendo a clareza, a validade e a ética do processo avaliativo quando aplicada a pessoas surdas. A simples tradução desses instrumentos para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é insuficiente, pois desconsidera aspectos gramaticais e culturais da comunidade surda. Conforme orientações do CFP e do SATEPSI, instrumentos destinados a grupos específicos devem passar por processos de adaptação e equivalência. A ausência de escalas adequadamente adaptadas dificulta o rastreio de sintomas de depressão, ansiedade e estresse e aumenta o risco de ruídos comunicacionais, risco de diagnósticos imprecisos, gerar registros inadequados em prontuário, provocar constrangimentos, comprometer a adesão ao tratamento e intensificar o sofrimento . A Tecnologia Social foi criada para enfrentar essas situações em contextos clínicos e institucionais, integrando recursos tecnológicos à Avaliação Psicológica Inclusiva.
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste na adaptação cultural, linguística e digital da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), por meio de uma plataforma online acessível e de livre acesso, voltada ao rastreio complementar em saúde mental de pessoas surdas. A iniciativa foi concebida e implementada no âmbito da Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC), entidade comunitária sem fins lucrativos, com histórico consolidado de atuação social nas áreas da educação, saúde, comunicação e desenvolvimento regional, sendo responsável pela criação e consolidação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e por diversos serviços comunitários.
A APESC já está presente de forma contínua na comunidade, não se tratando de uma primeira intervenção. Sua atuação histórica, desde 1962, em ensino, pesquisa, extensão e serviços em saúde possibilitou uma relação de proximidade, confiança e escuta qualificada com a comunidade surda, favorecendo o desenvolvimento da tecnologia de forma ética, participativa e contextualizada às demandas reais do território.
A metodologia adotada baseou-se em uma abordagem exploratória, com predominância qualitativa, organizada em um processo sistematizado composto por sete etapas. Desde o planejamento, a comunidade surda esteve envolvida ativamente no desenvolvimento da tecnologia, participando não apenas como público beneficiário, mas como agente coprodutor e integrante dos processos de tomada de decisão. Pessoas surdas participaram das etapas de tradução, análise semântica, validação linguística, retrotradução, avaliação da experiência do usuário e aplicação piloto.
O processo iniciou com a tradução da DASS-21 para LIBRAS, realizada de forma independente por três juízes fluentes — uma psicóloga, um intérprete e uma integrante da comunidade surda — priorizando uma sinalização natural, culturalmente adequada e coerente com a gramática visual-espacial da LIBRAS. Em seguida, as versões produzidas foram analisadas coletivamente pela equipe e unificadas por consenso, resultando em uma versão preliminar dos itens.
Na etapa seguinte, uma equipe independente, composta por profissionais bilíngues, incluindo uma psicóloga surda, realizou a retrotradução dos vídeos para o português, sem contato prévio com a escala original, possibilitando a verificação da equivalência conceitual. Posteriormente, os materiais foram comparados com a versão de referência da escala, o que permitiu ajustes finais e a definição da versão definitiva dos enunciados e itens.
Os vídeos sinalizados em LIBRAS, foram então gravados em estúdio, seguindo critérios técnicos de acessibilidade, como fundo neutro, iluminação adequada, vestimenta padronizada e postura profissional, assegurando clareza visual e acolhimento. Após a gravação, o conteúdo foi integrado a uma plataforma digital responsiva, idealizada no âmbito institucional e desenvolvida de forma colaborativa, permitindo navegação intuitiva, autonomia do usuário, possibilidade de retornar a perguntas anteriores e apresentação clara das opções de resposta.
A tecnologia passou por avaliação de juízes especialistas, incluindo psicólogas e intérpretes, por meio de um formulário estruturado baseado nas diretrizes da ABNT para acessibilidade digital. Os resultados indicaram adequada compreensão dos itens, facilidade de navegação e percepção positiva da experiência do usuário. Na etapa de aplicação piloto, realizada com pessoas surdas em contexto clínico, os participantes relataram identificação com os conteúdos, sensação de representatividade, facilidade de uso e tempo médio de resposta de aproximadamente dez minutos. Depoimentos espontâneos evidenciaram impacto positivo, com relatos de acolhimento e reconhecimento subjetivo dos sintomas apresentados.
A iniciativa foi aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa e segue integralmente os preceitos da Lei Geral de Proteção de Dados. Trata-se de uma Tecnologia Social reaplicável em serviços de saúde, educação, clínicas, universidades e organizações sociais, que fortalece a Avaliação Psicológica Inclusiva, reduz barreiras comunicacionais e promove equidade no acesso à saúde mental, em consonância com a missão institucional da APESC de promover o desenvolvimento regional com responsabilidade social.
Recursos Necessários
A Unidade da Tecnologia Social corresponde à disponibilização da versão digital da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) adaptada para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), por meio de uma plataforma online acessível, utilizada como ferramenta de apoio ao rastreio em saúde mental de pessoas surdas em instituições de saúde ou educação. O desenvolvimento da tecnologia envolveu 12 voluntários, entre pessoas surdas, intérpretes de LIBRAS, psicólogas, integrantes da comunidade surda e uma programadora responsável pela construção da plataforma, além de 5 participantes surdos na fase final de aplicação.
Para a implantação de uma unidade, são necessários recursos humanos e materiais básicos. Em termos de pessoal, recomenda-se ao menos um profissional da saúde para conduzir a aplicação e a interpretação dos resultados, bem como o suporte de um profissional de Tecnologia da Informação, responsável pela configuração, atualização e manutenção técnica da plataforma.
Quanto aos recursos materiais, são necessários computadores ou notebooks com acesso à internet e navegador atualizado, considerando que a tecnologia foi elaborada prioritariamente para esses dispositivos. Há necessidade de contratação de serviço de hospedagem digital para manter a plataforma ativa e segura. Não são exigidos softwares pagos adicionais nem adaptações físicas no espaço institucional. A tecnologia apresenta baixo custo de implantação e alta possibilidade de reaplicação em diferentes contextos.
Resultados Alcançados
A implantação da Tecnologia Social resultou em avanços quantitativos e qualitativos relevantes na promoção da acessibilidade em saúde mental para pessoas surdas. Participaram da aplicação piloto cinco pessoas com surdez profunda, fluentes em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), sendo quatro mulheres e um homem, com idades entre 30 e 44 anos. Todos utilizaram a plataforma de forma autônoma, sem mediação direta da pesquisadora, demonstrando a efetividade da tecnologia mesmo em contextos em que o profissional de saúde não domina a LIBRAS. O tempo médio de preenchimento da escala foi de aproximadamente 10 minutos, indicando boa usabilidade.
No desenvolvimento da tecnologia participaram onze voluntários, entre pessoas surdas e ouvintes bilíngues, incluindo intérpretes de LIBRAS, profissionais da saúde, psicólogas — duas delas surdas — e uma programadora responsável pela construção da plataforma digital. A participação ativa de pessoas surdas em diferentes etapas assegurou validação cultural, adequação linguística e decisões compartilhadas, fortalecendo o caráter participativo da iniciativa.
A avaliação da plataforma foi realizada por cinco juízes especialistas, por meio de formulário estruturado com 39 questões, baseado nas diretrizes da ABNT para acessibilidade digital. Os resultados indicaram índices de aprovação entre 80% e 100% nos quesitos clareza dos sinais, adequação linguística, facilidade de navegação, tempo de resposta e compreensão do objetivo do software. Todos os avaliadores consideraram a tecnologia acessível e apropriada para atender às necessidades do público surdo.
Do ponto de vista qualitativo, os participantes relataram sensação de acolhimento, representatividade e identificação com os conteúdos apresentados. Expressões como “foi como me ver no espelho” e “parecia uma conversa por chamada de vídeo” evidenciam compreensão dos sintomas e envolvimento subjetivo com a ferramenta. Também destacaram nunca terem tido acesso a um material semelhante, reforçando o caráter inovador da tecnologia.
O acompanhamento dos resultados ocorreu por meio da avaliação dos juízes, da observação da experiência de uso e da escuta dos relatos dos participantes. Os resultados demonstram que a tecnologia cumpre sua função como instrumento complementar de rastreio em saúde mental, promovendo acessibilidade, autonomia, redução de barreiras comunicacionais e impacto social positivo, alinhado aos princípios da Avaliação Psicológica Inclusiva e da justiça social.
Público atendido
Surdos
Portadores de Deficiência
Adulto
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