Objetivo
Apresentar uma proposta de metodologia para criação da Incubadoras Tecnológicas de Economia Solidária (ITES) em Instituições de Ensino multicampi que atuam com base no tripé do ensino, pesquisa e extensão.
Problema Solucionado
No caso específico da Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica (RFEPCT). O contexto de criação das Incubadoras foi:
- 80 mil servidores, sendo que 3,6% deles tem experiência com economia solidária em seu currículo Lattes.
- 18 Incubadoras que trabalham com economia solidária na RFEPCT, com 43 Núcleos (iniciativas multicampi).
- 13 IFs têm interesse em implementar ITES em suas unidades, sendo que 6 já iniciaram o processo, alguns com base na metodologia aqui proposta para ser classificada como Tecnologia Social.
- o Fórum de Pró-reitores de Extensão da RFEPCT (FORPROEXT) recomendou que as instituições da Rede criem suas ITES
Não há nenhuma política pública atualmente que colabore com essas iniciativas e a consequência disso pode ser a de continuidade de algumas ações. Em 2013 haviam mapeadas 10 ITES e, atualmente, 5 destas não estão mais em atuação.
As ITES são uma importante estratégia de geração de trabalho e renda para superar a pobreza e a exclusão social nos territórios em que estão, integrando ensino, pesquisa, extensão e inovação social para o fortalecimento e apoio as iniciativas de economia solidária.
Descrição
A proposta é que as ITES atuem de forma descentralizada, com Núcleos nos diferentes campi. Trata-se de uma Incubadora organizada em rede, e não uma rede de incubadoras.
A metodologia de implantação divide-se em quatro partes.
1. Princípios norteadores
a) Espaço democrático e horizontal: a Incubadora tem uma coordenação geral (titular e vice) que articula ações entre os Núcleos e a Pró-reitoria. Cada Núcleo possui um(a) coordenador(a) local, que participa das reuniões para deliberações e troca de informações.
b) Atuação no território: a ITES deve atuar onde houver iniciativas de economia solidária, dentro da área de abrangência do campus e em consonância com seus eixos tecnológicos e perfil dos servidores.
c) Avaliação permanente: deve verificar continuamente se os objetivos estão sendo alcançados, se os princípios estão sendo seguidos e se os resultados satisfazem os membros e os grupos acompanhados.
d) Formação constante: garante o nivelamento de conhecimento entre os membros, considerando a rotatividade comum nas instituições.
e) Articulação em rede e com movimentos sociais: deve integrar ações com movimentos locais e atuar em rede interna e externamente.
f) Educação popular: baseia-se na emancipação dos trabalhadores e no diálogo entre saberes científicos e populares, promovendo cidadania e autonomia.
2. Etapa 1 – Sensibilização e afirmação
a) Pactuação dos princípios: define o foco e a identidade da ITES, garantindo a participação de pessoas com afinidade com a temática.
b) Esclarecimento conceitual: diferencia a economia solidária e as ITES de outras iniciativas e incubadoras empresariais.
c) Apoio institucional: apresentação da proposta em espaços colegiados para sensibilizar gestores e mostrar o potencial de impacto da ITES.
d) Sensibilização de servidores: apresentação aberta sobre economia solidária e incubação, com atenção a servidores já envolvidos em ações afins.
Essa etapa pode nascer tanto da mobilização de servidores quanto da direção da instituição.
3. Etapa 2 – Institucionalização e engajamento
a) Comissão e plano de trabalho: criação de comissão formal para preparar a implantação da Incubadora. O plano deve ser flexível, com encontros mensais voltados à formação e deliberação.
b) Comunicação interna e externa: criação de um sistema de gestão do conhecimento acessível, com divulgação institucional e nas redes sociais.
c) Identidade visual e nome: fortalecem o sentimento de pertencimento e o reconhecimento interno e externo.
d) Metodologia de incubação: deve ser construída coletivamente, com base em trocas, intercâmbios e formação conjunta, incluindo instrumentos e tecnologias comuns aos Núcleos.
e) Regimento interno e formalização: define funcionamento, estrutura, financiamento e princípios. Um evento formal de lançamento marca o início da ITES e apresenta suas coordenações geral e locais.
f) Planejamento estratégico: define missão, visão e valores (ou princípios) de forma participativa, garantindo apropriação coletiva.
Muitas dessas atividades seguem contínuas, como a gestão do conhecimento e o desenvolvimento de instrumentos comuns. Parcerias com outras incubadoras devem ser estimuladas.
4. Etapa 3 – Consolidação e expansão
a) Início da incubação: nos campi ainda sem atuação, deve-se buscar parcerias com movimentos sociais locais.
b) Definição do escopo dos Núcleos: baseia-se no perfil dos servidores e no eixo tecnológico do campus. Demandas externas a esse perfil podem ser atendidas pela rede.
c) Intercâmbios e formação: promovem aprendizado com outras incubadoras e experiências de economia solidária, incentivando a produção acadêmica e a participação em eventos.
d) Critérios de adesão e composição dos Núcleos: devem ser flexíveis e inclusivos, acolhendo novos participantes.
e) Expansão: ocorre pela criação de Núcleos em novos campi, seja por demanda interna, seja por busca ativa de interessados.
f) Captação de recursos: além do apoio institucional, a ITES deve elaborar projetos que integrem os Núcleos e busquem financiamentos externos.
A incubadora em rede não é um fim em si mesma, mas um meio para fortalecer as ações de ensino, pesquisa e extensão em economia solidária. Seu papel é articular pessoas e projetos sob princípios comuns, tornando o trabalho coletivo mais efetivo, integrado e transformador.
Recursos Necessários
A condição para ter uma incubadora é ter um grupo pequeno de pessoas com interesse e disponibilidade para criar a Incubadora e trabalhar de forma articulada e em rede. As Incubadoras usam a estrutura das Instituições de ensino em que atuam e na maioria dos casos sequer têm uma sala própria, já que sua atuação é em campo (ou seja, externa à instituição). Porém, quanto maior o apoio institucional, maior será o impacto. A instituição pode, por exemplo, criar um programa de apoio a economia solidária com bolsa estudantil, disponibilizar transporte para os trabalhos de campo, dar suporte para que os membros da Incubadora conheçam outras experiências de ITES e partiicpem de Congressos e eventos, dentre outros apoios importantes. Porém, o mais importante, são pessoas com disposição.
Resultados Alcançados
Essa proposta de metodologia é embasada na criação de duas ITES, uma no Instituto Federal de Alagoas (chamada IFAL ECOSOL, que iniciou seu trabalho no fim de 2022) e outra no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (chamada IFSOL, que iniciou seu trabalho em 2018). Porém, é uma metodologia que serve para outras instituições de ensino, especialmente aquelas que são multicampi e atuam na perspectiva do ensino, pesquisa e extensão.
No IFRN, a IFSOL, em 2024, atendeu 2.060 pessoas nos 15 núcleos. Tem 34 servidores envolvidos, 84 estudantes, além de 35 empreendimentos acompanhados e 8 feiras.
No IFAL, a IFAL ECOSOL, em 2024, atendeu 336 pessoas nos 11 núcleos. Conta com 61 servidores envolvidos, sendo 41 como membros, 34 estudantes, acompanhando 14 iniciativas de economia solidária. A incubadora também participou de 12 eventos, sendo 5 na organização, apresentando 9 trabalhos acadêmicos. Ao todo, desenvolveu 16 projetos de extensão, 4 de pesquisa e 7 de ensino.
Em uma avaliação recente, 33% dos membros da incubadora afirmaram que seria pouco provável que esses trabalhos fossem realizados se não estivessem na incubadora. Os principais ganhos do trabalho em rede foram: fortalecimento e apoio mútuo; articulação e integração; formação e disseminação de informações; e, por fim, trabalho coletivo e identidade única. O nível de satisfação com o trabalho em rede da incubadora é de 80%.
As incubadoras têm atuado como uma rede de apoio para pessoas que desejam desenvolver atividades de extensão e pesquisa, mas que se sentiam inseguras para fazer, estando isoladas. Também representam uma porta de entrada para que as pessoas conheçam uma nova forma de geração de trabalho e renda a partir da economia solidária.
Em 2025 ela foi apresentada no IFPE (Instituto Federal de Pernambuco), IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), IFC (Instituto Federal Catarinense) e IFS (Instituto Federal de Sergipe) que estão em processo de construção das suas Incubadoras.
Essa metodologia tem se demonstrado relevante para fortalecer as iniciativas em curso e tem dado suporte para iniciativas em construção, minimizando o seu risco de descontinuidade precoce. A metodologia pode servir para todas as instituições de Ensino multicampi.
Público atendido
Lideranças Comunitárias
Jovens
Famílias de Baixa Renda
Catadores de Material Reciclável
Agricultores Familiares
Artesãos
Assentados Rurais
Pescadores
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