Objetivo
A Tecnologia Social Futebol3, desenvolvida pela Fundação EPROCAD, tem como objetivo transformar o futebol em uma ferramenta de educação e cidadania. A metodologia estimula corresponsabilidade, autonomia e diálogo, permitindo que meninas e meninos experimentem valores como cooperação, respeito e resolução de conflitos de forma prática e significativa.
Nos territórios onde atua, marcados por fortes desigualdades sociais, a iniciativa se consolida como instrumento de inclusão e equidade. Ao proporcionar espaços de convivência mista e de reflexão coletiva, o Futebol3 fortalece o protagonismo juvenil, amplia oportunidades e promove uma cultura de paz, especialmente em comunidades periféricas de Santana de Parnaíba.
Reconhecida por organismos nacionais e internacionais como o PNUD, a FIFA Foundation e prêmios de destaque no terceiro setor, a tecnologia já beneficiou diretamente mais de 14.000 crianças, adolescentes e adultos. Seu impacto vai além do esporte: amplia autoestima, estimula engajamento comunitário e se apresenta como uma prática pedagógica com potencial de replicação em diferentes contextos do Brasil e do mundo.
Problema Solucionado
O município de Santana de Parnaíba, como indica o Censo Cidades de 2022 (IBGE) passou de 74.828 habitantes em 2000, para 154.105 em 2022, o que representou um crescimento persistente nos últimos anos.
Além disto o município apresenta uma realidade bastante particular. Apesar de registrar um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,814, de acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em parceria com o IBGE e o IPEA, o município figura entre os que apresentam maior desigualdade social no país.
Grande parte da renda e do acesso a direitos básicos está concentrada em uma pequena parcela da população, enquanto outra significativa parte reside em bairros periféricos, afastados do centro urbano, com acesso limitado a moradia adequada, saneamento básico e oportunidades e acesso de serviços básicos.
O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social-IPVS (Seade, 2010) apresenta que 26,0% do total de sua população encontram-se em baixíssima vulnerabilidade, com rendimento nominal médio dos domicílios em R$ 13.922,00. Por outro lado não representa os 32,4% do total de sua população em situação de alta vulnerabilidade, que apresenta rendimento médio dos domicílios em R$ 1.495,00, sendo que em 27,8% deles a renda não ultrapassava meio salário mínimo per capita.
Caracterizado por grandes desigualdades sociais e grande aumento populacional em um curto espaço de tempo, se abrem espaços para iniciativas criativas que busquem auxiliar no desenvolvimento social do município, como intervenções complementares a educação pública formal, a qualidade de vida e a igualdade de gênero.
Descrição
A experiência é uma construção coletiva de toda a equipe de colaboradores incluindo os educandos e que vem se aperfeiçoando desde 2005.
Consiste em uma visão diferente das regras clássicas do futebol, onde a conduta do participante dentro de campo vale mais do que o número de gols marcados, além da figura do árbitro, descrito neste processo como mediador, que não emite parecer técnico favorecendo um ou outro time, pelo contrário, ele deve buscar aproximar e possibilitar o diálogo entre os competidores, fazendo com que os envolvidos participem ativamente na busca de soluções que atendam a todo o grupo. Possibilitando as meninas maior participação e destaque, não estando mais relegadas ao papel de meras expectadoras ou torcedoras, pois todas as turmas são mistas.
As partidas são divididas não em dois, mas em três tempos de jogo onde se instaura um processo de debate, aprendizagem e negociação, além da prática do esporte.
No primeiro tempo, os dois times buscam chegar a um acordo sobre as regras básicas a serem seguidas, junto a figura do mediador. É um processo coletivo, construído segundo a percepção das condições físicas do espaço, as habilidades dos participantes e todos os outros elementos presentes dentro do jogo.
O segundo tempo é quando a bola rola para valer, seguindo as regras estabelecidas no período anterior.
O terceiro tempo, por fim, é reservado para a reflexão, e é então que os participantes trocam impressões a respeito da partida, avaliando os acordos iniciais, os cumprimentos das regras e contabilizam os pontos de cada time. Fica a cargo dos próprios educandos decidirem, em conjunto, os valores e lhes atribuir pontuação. reiterando que o que vale aqui é o comportamento no campo, as interações e o compromisso com as regras pactuadas.
A tecnologia social é aplicada pela Fundação EPROCAD no município de Santana de Parnaíba, e esta busca por meio do esporte (futebol) favorece o ensino de valores e atitudes que dificilmente são trabalhados em outros ambientes, proporcionando momentos de reflexão e construção coletiva do conhecimento e contribuindo para o desenvolvimento integral dos participantes.
A escolha do futebol deu-se por ser um fenômeno de grande popularidade nacional e por seu potencial de grande influência no comportamento, nas atitudes e nos valores adotados por uma pessoa, principalmente crianças e adolescentes.
Durante as atividades os beneficiários e o mediador determinam as adequações necessárias, levando em considerações eventuais limitações, que favoreçam a participação de todos.
Reiterando comentado acima, o mediador não é um árbitro e não emite nenhum parecer técnico, ele deve aproximar e restaurar o diálogo entre as partes, fazendo com que os envolvidos participem ativamente na busca de melhores soluções que se ajustem a seus interesses. Outra função do mediador é produzir tensões que favoreçam a troca de informações, buscando a preservação do relacionamento por meio de reformulação de questões e criando alternativas que propiciem o diálogo entre as partes. Desta forma, ocorre o desabrochar do motivo real que os fez chegar ao confronto, possibilitando que a decisão seja tomada pelas próprias partes que, assim, assumem a responsabilidade ao invés da decisão ser imposta pelo mediador.
Neste cenário, não necessariamente a equipe que faz o maior número de gols é a vencedora, pois a conduta dos participantes de uma maneira geral, vale mais do que a quantidade de gols. O objetivo principal vai muito além da vitória, contempla um processo de aprendizagem constante.
Para isso o jogo se desenvolve em três etapas:
Primeira etapa: Há uma roda de conversa entre os participantes na qual são abordadas as regras do jogo, nesse momento eles podem criar e adequá-las às necessidades dos espaços (quadra, estacionamento, rua e etc), as capacidades motoras e experiencias práticas dos participantes, ao tempo hábil de jogo, entre outras.
Segunda etapa: É o jogo de futebol propriamente dito. Não existe a presença de um árbitro, os próprios participantes possuem a responsabilidade de conduzir a partida e fazer valer os acordos pré-estabelecidos na primeira etapa. O mediador é responsável pela observação e anotações das ações que ocorram neste momento.
Terceira etapa: Os participantes voltam a se reunir para avaliar se as regras e acordos pré-estabelecidos foram cumpridos, somando a pontuação da conduta (Fair play) ao número de gols marcados, definindo a pontuação final de cada uma das equipes. Nesse momento o mediador é responsável pela mediação de eventuais conflitos que porventura possam surgir nesse processo.
Conforme os educandos participantes vão adquirindo experiência e se destacando durante as atividades, eles passam a assumir o papel de mediador, visto que a metodologia aplicada facilita a formação de jovens protagonistas e capazes de serem difusores dos princípios e valores encontrados na metodologia em suas comunidades e vida cotidiana.
Recursos Necessários
A metodologia embasa-se por uma prática e construção conjunta do jogo, assim muito dos materiais a serem utilizados podem ser adaptados ou incluídos de acordo com as características do grupo:
Como materiais básicos para essa prática observamos a necessidade apenas de uma bola de futebol, visando não descaracterizar o jogo e manter a essência do jogo de futebol.
E uma planilha para anotações e registros do acontecido e observado dentro do jogo, que servirá como subsídios para as indagações e o desenvolvimento da mediação no terceiro tempo por parte do mediador.
Agregado a caracterização de seus praticantes, visando facilitar a compreensão e o desenvolvimento dos momentos práticos de atividades.
E um espaço de prática segura, podendo ser este adaptado ou não ao ambiente tradicional do desporto (quadra ou campo), favorecendo adaptar-se as características do local de execução e estímulo a construção de regras que estabelecem diretrizes para desenvolvimento de um jogo pautado e caracterizado pelo grupo de praticantes.
Resultados Alcançados
A Fundação EPROCAD atua há 40 anos em Santana de Parnaíba/SP e na região metropolitana de São Paulo.
Em nossas atividades, abordamos diversos temas transversais, como igualdade de gênero, sexualidade, cultura de paz e sustentabilidade, muito presentes no cotidiano das comunidades onde atuamos. Com essa metodologia, a Fundação EPROCAD foi reconhecida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), conquistou o Prêmio Petrobras de Esporte Educacional e, desde 2007, desenvolve ações com o apoio da FIFA, inicialmente pelo programa Football for Hope e, atualmente, pela FIFA Foundation, beneficiando diretamente mais de 10.000 crianças e adolescentes de Santana de Parnaíba e região.
A partir da tecnologia e de avaliações de impacto, em parceria com a Fundação Itaú Social, verificamos que educandos participantes das atividades da EPROCAD apresentam aumento de 3% na auto-estima. Segundo Draco (2011), que analisa a relação entre ganhos de auto-estima e salários, esse resultado pode se refletir, no futuro, em aproximadamente 1,5% de aumento salarial para os participantes.
Ao longo dos anos, a Fundação EPROCAD vem consolidando seu trabalho como instituição de referência no terceiro setor, figurando em 2018, 2022 e 2023 entre as 100 Melhores ONGs do país e conquistando, em 2022 e 2023, o Prêmio de Melhor ONG de Esporte do Brasil.
Para mensurar com fidelidade esse impacto, a instituição desenvolve uma avaliação por competências aplicada durante as atividades. Esse instrumento permite conhecer melhor o perfil dos beneficiados e trabalhar com ênfase nas características individuais. Para atender aos objetivos da Fundação, as questões são organizadas em blocos que contemplam participação e conduta, mensurando o desenvolvimento das seguintes competências: pessoais (autonomia), cognitivas (resolução de problemas), relacionais (sociabilidade) e produtivas (trabalho em equipe).
Os resultados permitem visualizar as evoluções ao longo do processo de ensino-aprendizagem e oferecem subsídios aos educadores para orientar suas ações, funcionando como ferramenta de monitoramento da evolução comportamental dos educandos.
Há grande potencial de difusão da metodologia. Por utilizar o esporte mais popular do país e não exigir grande infraestrutura, a proposta pode ser replicada para além do Brasil por meio de instituições vinculadas à rede Common Goal, em todos os cinco continentes, evidenciando ainda mais o impacto transformador que o esporte e o futebol podem ter na vida de pessoas e comunidades.
Público atendido
Crianças
Adolescentes
Jovens
Adulto
Mulheres
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