Objetivo
Promover inclusão produtiva e geração de renda sustentável através da economia circular, transformando resíduos têxteis industriais em produtos de valor agregado, fortalecendo a autonomia econômica de trabalhadores da economia solidária, especialmente mulheres, redução de destinação inadequada de resíduos sólidos e protagonismo social das comunidades participantes.
Problema Solucionado
A região da AMFRI (Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí) enfrenta duplo desafio socioambiental: o Brasil descarta mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis anualmente, representando 5,6% do total de resíduos do país CNN BrasilAgência Brasil, enquanto no processo produtivo têxtil, entre 15% e 20% do material cortado torna-se resíduo Portogente. O Vale do Itajaí, polo industrial têxtil estratégico, gera volume significativo desses materiais, que historicamente seguiam para destinação inadequada em aterros. Paralelamente, trabalhadores da economia solidária, especialmente mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, enfrentavam dificuldades de acesso a insumos produtivos e mercados formais. A Tecnologia Social surgiu para conectar esses dois problemas: transformar passivo ambiental em oportunidade econômica, promovendo simultaneamente cuidado ambiental, geração de renda digna, protagonismo social feminino e solidariedade econômica através da economia circular, alinhando-se aos princípios de consumo e produção responsáveis e fortalecimento de arranjos produtivos locais sustentáveis.
Descrição
O CEPESI – Centro Público de Economia Solidária de Itajaí completa 20 anos de atuação como Organização da Sociedade Civil dedicada ao fortalecimento da economia solidária no território da AMFRI. Desde sua fundação, atua na articulação, formação e apoio a Empreendimentos Econômicos Solidários (EES), promovendo redes de produção e comercialização baseadas na autogestão, cooperação e solidariedade. Sua trajetória é marcada pela geração de trabalho e renda para públicos em situação de vulnerabilidade, com forte protagonismo feminino.
A Rede CEPESI Circular surgiu a partir da escuta ativa dos EES parceiros, que enfrentavam dificuldades de acesso a insumos de qualidade, aliadas ao alto volume de resíduos têxteis gerados pela indústria regional. Por meio de assembleias, oficinas e rodas de conversa, foi cocriada a solução: o CEPESI atuaria como receptor certificado de resíduos têxteis, realizaria triagem técnica especializada e distribuiria os materiais conforme a vocação produtiva de cada empreendimento.
Os trabalhadores participaram diretamente do desenho da tecnologia social, definindo critérios de classificação dos tecidos, fluxos de distribuição, necessidades formativas, equipamentos prioritários e estratégias de comercialização, assegurando aderência às demandas reais do território.
O funcionamento da tecnologia ocorre em etapas integradas. Inicialmente, o CEPESI recebe resíduos têxteis industriais como recebedor autorizado, garantindo destinação ambientalmente adequada. Em seguida, aplica metodologia própria de triagem, com separação por tamanho, tipo de tecido, potencial produtivo e registro quantitativo para monitoramento de impacto ambiental.
A distribuição é realizada conforme a vocação produtiva dos EES: tecidos grandes são destinados ao vestuário e upcycling; tecidos médios à produção de bolsas e acessórios utilitários; tecidos pequenos a acessórios de moda; e retalhos miúdos ao enchimento de camas pet, arranjo produtivo premiado em duas edições do Edital Sicredi.
A tecnologia é fortalecida por formações continuadas em upcycling, gestão de empreendimentos solidários, precificação, marketing digital e economia circular. O CEPESI também disponibiliza infraestrutura compartilhada, incluindo espaço coletivo de trabalho, maquinário industrial, equipamentos especializados e insumos complementares.
A comercialização ocorre por meio de loja física localizada em rota turística estratégica, funcionando como vitrine coletiva dos produtos dos 10 EES, ampliando acesso a mercados qualificados e aumentando a renda dos trabalhadores.
A gestão é baseada na autogestão, com assembleias mensais para avaliação, tomada de decisões, definição de investimentos, planejamento formativo e metas comerciais. A relação do CEPESI com os EES é horizontal e contínua, com visitas semanais, atendimentos individualizados e ações formativas.
Atualmente, a tecnologia impacta diretamente 55 trabalhadores, sendo 85% mulheres, com renda média mensal de R$ 1.450, além de beneficiar cerca de 300 pessoas indiretamente. Aproximadamente 12 toneladas mensais de resíduos têxteis são triadas e reaproveitadas. Os impactos qualitativos incluem fortalecimento da autonomia econômica, valorização de saberes tradicionais, coesão comunitária e consciência ambiental.
A sustentabilidade da tecnologia é garantida pela apropriação integral do processo pelos trabalhadores, assegurando autonomia e continuidade mesmo com a redução de apoios externos.
Recursos Necessários
Recursos Humanos:
1 Coordenador(a) Geral (40h/semana), com formação em Economia Solidária ou Serviço Social;
1 Técnico(a) em Triagem Têxtil (40h/semana)
1 Educador(a) Popular para formações continuadas (20h/semana);
2 Apoiadores(as) de campo para acompanhamento dos EES (20h/semana cada).
Infraestrutura Física:
Espaço mínimo de 200m² para recepção, triagem e armazenamento de resíduos têxteis;
150m² para trabalho compartilhado dos EES, com bancadas e iluminação adequada;
80m² para loja/vitrine de comercialização, preferencialmente em área turística;
estrutura para pesagem e registro dos materiais.
Equipamentos e Maquinários:
8 máquinas de costura industriais retas, 4 overlocks, 2 máquinas de corte industrial,
1 desfibradeira para retalhos miúdos, ferramentas manuais, prateleiras para organização, expositores para loja e balanças de pesagem.
Materiais de Consumo:
Insumos complementares (linhas, zíperes, botões, elásticos), embalagens e materiais administrativos.
Transporte:
Veículo utilitário para coleta de resíduos industriais e distribuição aos EES.
Certificações e Formalizações:
Licença ambiental, alvará de funcionamento e certificação como receptor autorizado de resíduos têxteis.
Capacitação e Gestão:
Formação inicial da equipe técnica em economia circular e gestão de resíduos;
capacitação dos trabalhadores dos EES em upcycling, gestão e comercialização (80h por EES);
sistema de controle de materiais, ferramentas de gestão financeira e plataformas digitais de divulgaç
Resultados Alcançados
A tecnologia social impacta diretamente 55 trabalhadores organizados em 10 Empreendimentos Econômicos Solidários, sendo 85% mulheres (47 trabalhadoras), majoritariamente entre 35 e 60 anos, chefes de família e com renda familiar anterior inferior a um salário mínimo. Indiretamente, cerca de 300 pessoas são beneficiadas, considerando núcleos familiares e a comunidade do entorno.
Os resultados quantitativos demonstram impacto econômico, ambiental e formativo relevante. A renda média mensal por trabalhador é de R$ 1.450, representando um aumento médio de 180% na renda familiar. A rede comercializa aproximadamente R$ 65 mil por mês. Do ponto de vista ambiental, são desviadas 12 toneladas mensais de resíduos têxteis de aterros sanitários, totalizando 144 toneladas por ano, com taxa de aproveitamento de 92% e redução estimada de 360 m³ anuais de espaço em aterros, além da economia de recursos naturais associados à produção de tecido novo.
No campo do desenvolvimento de competências, são realizadas cerca de 480 horas anuais de formações técnicas. Todos os trabalhadores são capacitados em técnicas de upcycling, e 75% recebem formação em gestão, precificação e comercialização.
Os resultados qualitativos evidenciam transformações profundas. As trabalhadoras relatam aumento de autoestima, autonomia econômica e reconhecimento social, refletindo empoderamento feminino efetivo. O trabalho coletivo é ressignificado como digno e respeitoso, em contraste com experiências anteriores marcadas por exploração. Observa-se mudança consistente na percepção ambiental, com o resíduo passando a ser compreendido como matéria-prima valiosa, prática replicada nos domicílios. A rede fortalece vínculos comunitários, promove apoio mútuo e reduz o isolamento social, além de valorizar saberes tradicionais de costura como competências estratégicas da economia circular.
O acompanhamento ocorre de forma contínua, por meio de registros mensais de produção e vendas, entrevistas qualitativas semestrais, observação participante em visitas semanais, avaliações coletivas em assembleias, além de registros fotográficos e audiovisuais e indicadores de permanência e satisfação.
A apropriação integral da tecnologia pelos trabalhadores, com gestão autônoma dos processos produtivos e comerciais, comprova a sustentabilidade e a durabilidade das transformações alcançadas, atendendo aos critérios de efetividade da Tecnologia Social.
Público atendido
Artesãos
Empreendedores
Turistas
Comentários