Objetivo
Promover a inclusão de alimentos orgânicos e de base agroecológica na alimentação de crianças em Centro de Educação Infantil, por meio da sistematização de processos de compra, adequação de cardápios e ações educativas, fortalecendo práticas alimentares saudáveis, a agricultura familiar e a implementação da Lei 16.140/15 do município de São Paulo.
Problema Solucionado
O CREN+Orgânico surge diante dos impactos do atual sistema alimentar na saúde infantil, em especial pela exposição a agrotóxicos. A primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento físico, neurológico e emocional, sendo particularmente sensível a contaminantes químicos presentes nos alimentos. Assim, garantir a oferta de alimentos de qualidade e livres de agrotóxicos na alimentação escolar é essencial para a promoção da saúde e do desenvolvimento integral das crianças.
A alimentação escolar é uma das principais políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) na primeira infância, podendo suprir até 70% das necessidades nutricionais diárias, especialmente em territórios periféricos. Apesar disso, a implementação da Lei nº16.140/15, ainda enfrenta desafios relacionados a compras, logística, adequação de cardápios e aceitação alimentar.
Nesse contexto, o CREN+Orgânico demonstra que é possível estruturar a compra de FLV da AF de base agroecológica, fortalecer ações de EAN e EA no CEI e adaptar os cardápios da alimentação escolar, contribuindo para sistemas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e alinhados aos direitos das crianças.
Descrição
O CREN+Orgânico sistematiza a inclusão de FLV orgânicas e de base agroecológica na alimentação escolar de crianças de 0 a 6 anos incompletos no CEI. A iniciativa integra cuidado nutricional, EAN e EA, e o fortalecimento da AF, promovendo saúde infantil e desenvolvimento sustentável no território.
Essa tecnologia social resulta da trajetória de mais de 30 anos do CREN no enfrentamento da má nutrição infantil e da atuação direta na comunidade de São Miguel Paulista, onde a instituição mantém um CEI como espaço de cuidado, educação e tratamento para crianças com subnutrição ou obesidade. Sua implantação se apoia em relações consolidadas com famílias, educadores, agricultores familiares e instâncias de controle social, garantindo participação comunitária e legitimidade local e sustentabilidade da iniciativa.
Cabe ressaltar que, no município de São Paulo, essa tecnologia é direcionada à rede parceira que possui autonomia de realizar compras de FVL e para utilizar insumo provenientes de suas próprias hortas.
A tecnologia é organizada em quatro fases integradas e replicáveis:
1. Diagnóstico: identificação de recursos e barreiras para implantação da Lei 16.140/15 no CEI da rede parceira:
o mapeamento dos AF orgânicos e de base agroecológicos da região
análise da produção da AF; sazonalidade; capacidade produtiva; e situação documental e,
análise da infraestrutura do CEI (armazenamento, manipulação, preparo)
Essa etapa envolve escuta ativa com famílias, educadores e profissionais de saúde para identificar percepções sobre alimentação, rotinas e desafios.
2. Planejamento participativo: fluxos e processos organizados com contribuição de todos atores nas decisões e soluções que respondessem às necessidades locais
Adaptação do cardápios por grupos alimentares de acordo com a sazonalidade e produção da AF
Definição de compra orgânica, volumes e periodicidade
Criação de instrumentos de gestão da compra: planilhas de cotação, orientações de recebimento e checklist de qualidade
Planejamento de ações pedagógicas vinculadas à alimentação orgânica, integrando o currículo da cidade - educação infantil, cultura alimentar e a educação para a sustentabilidade.
Planejamento das atividades formativas para professores, gestores e cozinheiras
3. Implementação do processo
3.1. Organização do circuito de compras
Estabelecimento de parcerias com agricultores familiares
Ajuste dos pedidos conforme a produção da AF (quantidade, variedade e sazonalidade)
Fluxos de entrega e recebimento
Apoio à regularização documental AF, se necessário, com apoio de parcerias
3.2. Adequação do cardápio e preparo
Adaptação dos cardápios vigentes de acordo com a sazonalidade e produção da AF
Formação prática com cozinheiras sobre manipulação, cortes, aproveitamento integral e variações de preparo
3.3. Ações educativas: foco favorecer a aceitação alimentar e fortalecer o vínculo das crianças com alimentos saudáveis, integrando currículo da cidade, cultura alimentar e EA.
Oficinas de plantio, cuidados e colheita na horta
Oficinas nas unidades produtivas com os AF
Oficinas de experimentação sensorial e culinária
produção de peças de comunicação direcionada às famílias para favorecer o reconhecimento da AF no território e o consumo de alimentos orgânicos no domicílio.
4. Monitoramento, avaliação: com instrumentos de caráter quanti-qualitativos e contínuos de acompanhamento:
Registros de aceitação alimentar das crianças
Monitoramento das entregas, qualidade e regularidade dos alimentos
Análise de custos e comparação com o per-capita destinado à compra de FLV
Reuniões com atores envolvidos para avaliar resultados e ajustar rota
Depoimentos de educadores
Registros das crianças
O projeto adota o princípio do ‘fazer com’ (valor do CREN) fortalecendo o protagonismo do território e corresponsabilidade na promoção do bem comum. A comunidade participa em todas as etapas:
Planejamento: Educadores e cozinheiras apontam necessidades e ajudam a moldar cardápios e atividades;
Execução: Agricultores locais fornecem os alimentos e participam de oficinas e vivências com as crianças; Familiares, crianças, educadores e moradores e líderes comunitários auxiliam na implementação da horta pedagógica e comunitária;
Monitoramento e avaliação: Participação nas reuniões da Comissão de gestão da Lei dos Orgânicos comitês de SAN e redes parceiras contribuem para a análise de resultados e expansão da iniciativa.
Impactos e evidências:
Aumento da variedade das preparações na alimentação escolar com a introdução de FLV orgânicos;
Fortalecimento da AF urbana e periurbana orgânica e de base agroecológica;
Redução de desperdício e o aproveitamento integral dos alimentos;
Criação de instrumentos replicáveis para implementação da Lei 16.140/15.
Assim, o CREN + Orgânico se consolida como uma tecnologia social estruturada, aplicável em diferentes contextos e capaz de apoiar escolas e comunidades na implementação de práticas alimentares mais saudáveis e sustentáveis.
Recursos Necessários
A implementação da tecnologia social CREN+Orgânico em um CEI requer recursos humanos e materiais que sustentem o circuito de compras, a adequação dos cardápios e as ações educativas. Considerando que o CEI já dispõe de equipe, cozinha equipada e espaço para atividades, os recursos necessários concentram-se em complementos que qualifiquem a execução da tecnologia:
Recursos materiais:
•Utensílios adequados para manipulação de alimentos orgânicos assegurando boas práticas de preparo.
•Equipamentos de conservação, complementares, higienizáveis para organização e armazenamento.
•Materiais para o circuito de compras: balança, caixas de recebimento, pranchetas, formulários, planilhas e computador ou tablet simples para registros.
•Materiais pedagógicos para EAN: livros, recursos gráficos, sementes e pequenos utensílios para oficinas culinárias ou de horta.
•Espaço para vivências educativas (sala multiuso, pátio ou área externa).
•Materiais de comunicação com famílias: murais, cartazes ou arquivos digitais.
Recursos humanos do CEI:
. Equipe de gestão da unidade
•Educadores, para conduzir atividades pedagógicas.
•Equipe de cozinha, responsáveis pelo preparo das refeições conforme os protocolos.
•Apoio administrativo, mesmo parcial, para registros e organização das compras.
Consultoria especializada
Foco na capacitação dos diferentes profissionais da unidade de educação infantil acompanhamento e monitoramento
Resultados Alcançados
A implementação do CREN+Orgânico foi objeto de mestrado profissional desenvolvido no pilar de Integração de Pesquisa, Ensino e Políticas Públicas com desdobramento de publicações posteriores. Os resultados evidenciam impactos positivos na qualificação da alimentação escolar, no fortalecimento da relação com agricultores locais e na rotina pedagógica do CEI.
Em 2022, primeiro ano completo do projeto, foi realizado um acompanhamento trimestral dos gastos com FLV. A comparação entre o valor projetado de compras convencionais e o custo real dos alimentos orgânicos demonstrou economia de recursos em todos os trimestres analisados, evidenciando que a aquisição direta de produtores urbanos e rurais pode ser financeiramente equivalente ou mais vantajosa que a compra no mercado convencional. Os percentuais de economia foram de 33% no primeiro trimestre, 25%, no segundo; 18% no terceiro e 27% no quarto trimestre.
Outro resultado relevante foi a redução do desperdício. Registros da tecnologia indicaram que os alimentos orgânicos apresentaram maior durabilidade quando comparados aos convencionais, contribuindo para uma gestão mais eficiente dos estoques e menor perda de FLVs ao longo da semana.
No campo pedagógico e comunitário, esta iniciativa ampliou o repertório alimentar das crianças e profissionais, incorporando PANCs e variedades pouco apresentadas na alimentação escolar. Foram realizados momentos de escuta, rodas de conversa, oficinas culinárias, visitas a produtores e atividades de EAN, com participação ativa de professoras, cozinheiras, crianças, famílias e agricultores. Essas ações favoreceram a sensibilização sobre a cadeia produtiva dos alimentos, e a construção compartilhada de estratégias para fortalecer os cardápios orgânicos.
Para registrar os impactos qualitativos, foram conduzidas 15 entrevistas semiestruturadas com membros da comunidade escolar, agricultores e parceiros e documentadas por fotografias, vídeos e relatos. Os depoimentos indicam aumento da aceitação dos alimentos orgânicos pelas crianças, maior compreensão sobre alimentação saudável e fortalecimento dos vínculos entre escola e território.
Por fim, o CREN + Orgânico consolidou-se como referência para outros CEIs da rede parceira, tornando o CEI do CREN um protótipo para a implementação da Lei 16.140/15, e gerando instrumentos, processos e aprendizados que subsidiam a expansão da compra direta de orgânicos na alimentação escolar do município de São Paulo.
Público atendido
Agricultores Familiares
Crianças
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