Objetivo
Fortalecer a cultura, a autonomia comunitária e a proteção da sociobiodiversidade do povo Paiter Suruí por meio da preservação dos conhecimentos tradicionais, da transmissão intergeracional de saberes e da geração de renda sustentável baseada na floresta em pé.
Problema Solucionado
A criação do Centro Olawatawah foi motivada pelo risco crescente de perda dos conhecimentos tradicionais do povo Paiter Suruí, especialmente relacionados às plantas medicinais, às práticas espirituais e ao manejo da floresta. Esse problema é agravado por fatores históricos e estruturais, como a colonização, a pressão do agronegócio no entorno da Terra Indígena Sete de Setembro, o desmatamento, o aliciamento para atividades ilegais e os impactos das mudanças climáticas, que vêm reduzindo a disponibilidade de espécies medicinais fundamentais à saúde e à cultura do povo.
A perda desses saberes compromete a identidade cultural, a autonomia comunitária, a transmissão intergeracional e a relação equilibrada com o território, afetando principalmente jovens e futuras gerações. Além disso, a escassez de alternativas econômicas sustentáveis aumenta a vulnerabilidade social das famílias.
O Centro Olawatawah contribui para a solução desse problema ao criar um espaço comunitário de preservação cultural, formação intergeracional, manejo sustentável da sociobiodiversidade e geração de renda baseada na floresta em pé, fortalecendo a governança comunitária e a autonomia do povo Paiter Suruí.
Descrição
A Tecnologia Social “Centro Olawatawah” é um modelo comunitário integrado, desenvolvido e apropriado pelo povo Paiter Suruí (Aldeia Napidjan, Terra Indígena Sete de Setembro – Cacoal/RO), para preservar e transmitir conhecimentos tradicionais sobre plantas medicinais e espiritualidade, manejar a sociobiodiversidade e gerar renda sustentável com base na floresta em pé. A tecnologia combina saberes ancestrais, organização social e práticas sustentáveis, com protagonismo de anciãos, mulheres, jovens e lideranças comunitárias.
A implementação ocorre por etapas replicáveis e adaptáveis a outros territórios:
1. Planejamento comunitário e governança: rodas de conversa e reuniões definem prioridades, papéis, regras de convivência, responsabilidades e cronograma. As decisões são coletivas e orientadas pelo Bem Viver Paiter Suruí, assegurando autonomia, participação e alinhamento cultural.
2. Manejo tradicional das plantas medicinais e trilhas de aprendizagem: identificação, cultivo, replantio e manejo de espécies medicinais em áreas e trilhas na floresta. O ensino ocorre na prática (observação, coleta responsável, preparo e usos), com transmissão direta dos mais velhos aos jovens, fortalecendo a continuidade dos conhecimentos e a proteção das espécies.
3. Formação intergeracional e salvaguarda cultural: vivências, rituais e oficinas conduzidas por anciãos e lideranças espirituais reforçam identidade, pertencimento e memória coletiva. O Centro funciona como “escola viva”, onde o território é o espaço pedagógico e a cultura orienta a aprendizagem.
4. Turismo de base comunitária (TBC): a comunidade organiza a recepção de visitantes em ambiente imersivo na floresta, com trilhas, alimentação tradicional, momentos de escuta e vivências culturais. O Centro estrutura mecanismos de gestão e de precificação comunitária para assegurar transparência, justiça e sustentabilidade, fortalecendo a imagem pública do território e ampliando a sensibilização sobre a importância da floresta em pé.
5. Valorização do artesanato e autonomia das mulheres: fortalecimento da cadeia do artesanato indígena (ferramentas e materiais, organização produtiva e de estoque e preparação da futura loja comunitária). A atividade gera renda, valoriza a cultura e reforça o papel das mulheres na vida comunitária e na gestão do Centro, com uso responsável de insumos do território.
A tecnologia opera com instrumentos simples e efetivos (rodas de conversa, mutirões, trilhas medicinais, oficinas e vivências), baixa dependência de tecnologias externas e forte apropriação comunitária. Seus efeitos incluem preservação e transmissão de saberes tradicionais, manejo sustentável de espécies medicinais, fortalecimento do protagonismo de mulheres e jovens, alternativas econômicas compatíveis com a conservação e incremento do reconhecimento público do Centro como referência territorial.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da Tecnologia Social “Centro Olawatawah” requer recursos humanos, materiais e estruturais simples, adequados ao contexto comunitário e cultural do território onde será reaplicada.
Recursos humanos:
• Anciãos e lideranças tradicionais, responsáveis pela transmissão dos conhecimentos sobre plantas medicinais, espiritualidade e práticas culturais;
• Mulheres artesãs, protagonistas da cadeia produtiva do artesanato;
• Jovens da comunidade, atuando no apoio às atividades, comunicação comunitária e recepção de visitantes;
• Lideranças comunitárias responsáveis pela organização, governança e tomada de decisões;
• Apoio técnico pontual (quando necessário) para organização da gestão, precificação comunitária, comunicação e sistematização da metodologia.
Recursos materiais e estruturais:
• Espaço comunitário físico ou simbólico destinado às vivências culturais, reuniões e oficinas;
• Trilhas medicinais e áreas de manejo na floresta para identificação, cultivo e replantio de espécies;
• Ferramentas simples de manejo (facões, enxadas, pás, recipientes);
• Materiais básicos para produção de artesanato (insumos naturais, linhas, sementes, ferramentas manuais);
• Utensílios para oficinas, rituais e alimentação tradicional;
• Estrutura simples para recepção de visitantes no turismo de base comunitária (bancos, coberturas rústicas, sinalização);
• Materiais de registro e comunicação comunitária (cadernos, celular, câmera simples).
Resultados Alcançados
A implementação do Centro Olawatawah já gerou resultados sociais, culturais, ambientais e econômicos relevantes para a comunidade Paiter Suruí da Aldeia Napidjan, envolvendo diretamente cerca de 50 a 70 pessoas, entre anciãos, mulheres, jovens e lideranças comunitárias, além de impactar indiretamente visitantes e parceiros que participam das vivências e intercâmbios. Um dos principais resultados é o fortalecimento da transmissão intergeracional de conhecimentos tradicionais sobre plantas medicinais e espiritualidade, com maior participação dos jovens em atividades conduzidas pelos anciãos, que relatam aumento do interesse, do reconhecimento e do uso desses saberes no cotidiano comunitário.
Também houve a estruturação de trilhas e áreas de aprendizagem prática na floresta, utilizadas para identificação, manejo e replantio de espécies medicinais de uso tradicional, funcionando como espaços permanentes de formação e contribuindo para a regeneração e valorização da sociobiodiversidade. No eixo produtivo, observou-se a ampliação do protagonismo das mulheres por meio da cadeia do artesanato indígena, com fortalecimento da organização coletiva da produção, planejamento do trabalho e preparação para a comercialização, gerando renda complementar e reforçando o papel das mulheres na economia e na governança comunitária.
Outro resultado relevante é a consolidação do turismo de base comunitária como estratégia de sensibilização e geração de renda, com avanços na organização comunitária da recepção de visitantes, definição de papéis, acordos internos e início da estruturação de processos participativos de gestão e precificação. O Centro também alcançou maior reconhecimento externo, evidenciado pela participação em redes, programas de apoio, parcerias institucionais e convites para debates, intercâmbios e iniciativas de visibilidade nacional e internacional, fortalecendo a imagem pública do território e da cultura Paiter Suruí.
O acompanhamento desses resultados é realizado de forma participativa, por meio de rodas de conversa, reuniões comunitárias e mutirões, aliados a registros fotográficos e audiovisuais, relatos orais dos participantes, materiais de oficinas e vivências e documentos institucionais. As percepções recorrentes da comunidade indicam fortalecimento da identidade cultural, maior envolvimento de jovens e mulheres, ampliação da autonomia comunitária e valorização da floresta em pé como base de cuidado, aprendizado e geração de renda sustentável.
Público atendido
Povos Indígenas
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