Objetivo
Fortalecer o protagonismo de jovens, mulheres e do povo quilombola do Vale do Mucuri por meio de uma tecnologia social baseada no cooperativismo comunitário, na agroecologia e na economia solidária, promovendo organização produtiva, geração de renda, justiça étnico-racial, sustentabilidade ambiental e permanência digna das famílias no território.
Objetivos específicos
* Fortalecer a organização produtiva e a gestão coletiva de agricultores e agricultoras quilombolas por meio do cooperativismo comunitário;
* Ampliar o protagonismo de jovens e mulheres quilombolas nos espaços de decisão, produção e comercialização;
* Incentivar práticas agroecológicas e o manejo sustentável dos recursos naturais nos quintais produtivos;
* Promover acesso a tecnologias sociais de energia limpa, manejo da água e saneamento ecológico;
* Facilitar o acesso a mercados justos e solidários, garantindo geração de renda e valorização cultural.
Problema Solucionado
A Tecnologia Social Aquilombar Jovem foi criada para enfrentar a exclusão histórica de comunidades quilombolas do acesso a mercados, renda, políticas públicas estruturantes e condições adequadas de produção no campo. Em territórios marcados pela desigualdade racial e territorial, agricultores e agricultoras familiares enfrentam dificuldades para escoar sua produção, dependência de atravessadores, baixa organização produtiva e fragilidade no acesso a programas institucionais, o que compromete a sustentabilidade econômica das famílias e estimula o êxodo rural, especialmente entre jovens. O problema se agrava em contextos de vulnerabilidade socioambiental, como a irregularidade das chuvas afetando diretamente os quintais produtivos, a segurança alimentar. A Tecnologia Social pode ser implantada em comunidades tradicionais, rurais e periféricas que enfrentam desafios semelhantes, atuando na organização coletiva da produção, no fortalecimento do cooperativismo comunitário, no acesso a mercados justos, na promoção da agroecologia e na adoção de soluções sustentáveis para o uso da água, da energia e do saneamento, contribuindo para a permanência digna das famílias em seus territórios.
Descrição
A Cooperativa Raízes dos Vales nasceu da luta das comunidades quilombolas do município de Ouro Verde de Minas para superar as dificuldades históricas de acesso a mercados e, assim, oportunizar melhores condições de vida às famílias agricultoras. Sua criação está profundamente enraizada no contexto territorial, social e histórico das comunidades tradicionais que compõem a região. O município de Ouro Verde de Minas localiza-se no Nordeste de Minas Gerais, em uma região de transição entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado, integrando o território da Pastoral de Nanuque. Segundo dados do IBGE, possui extensão territorial de 175,482 km² e população de 5.757 habitantes (Censo 2022). Historicamente, a região foi habitada pelos povos indígenas Maxakali e, a partir da década de 1930, passou a receber migrantes em busca de terras férteis. Contudo, o marco central da constituição identitária do território ocorreu entre o final do século XIX e início do século XX, com a chegada de descendentes de afro-brasileiros oriundos do Vale do Jequitinhonha e do sul da Bahia, muitos fugindo da seca, de desapropriações por grileiros e das marcas deixadas pelo trabalho escravo. Esses grupos encontraram na região matas densas, águas abundantes e solos férteis para reconstruir suas vidas, dando origem às comunidades quilombolas locais, que preservaram práticas coletivas de produção, manifestações culturais e o respeito aos ciclos da natureza. Esse processo resultou no reconhecimento oficial, a partir de 2005, da primeira comunidade quilombola do município, o Quilombo Santa Cruz, certificada pela Fundação Palmares, seguido pelo reconhecimento das comunidades quilombolas Água Limpa, Carneiro, Água Preta de Baixo e Água Preta de Cima. É nesse território de resistência, ancestralidade e organização coletiva que a Cooperativa Raízes dos Vales foi fundada em 19 de novembro de 2019, por 39 cooperados(as) fundadores(as), mas em decorrência da COVID19 somente em 12 de janeira de 2021 foi regularizada. A Tecnologia Social Aquilombar Jovem: Plantando Sementes e Criando Raízes nos Vales tem como base a trajetória histórica da Cooperativa Raízes dos Vales, que atua no Vale Mucuri, junto às comunidades quilombolas, desenvolvendo ações de organização produtiva, formação social, fortalecimento da agricultura familiar e acesso a mercados justos. A cooperativa nasce de uma atuação prévia das lideranças comunitárias em espaços coletivos de luta, como os Encontros de Comunidades Quilombolas, associações comunitárias e grupos produtivos, acumulando experiência social antes mesmo de sua formalização institucional. A metodologia da Tecnologia Social é fundamentada no cooperativismo comunitário, na agroecologia e na economia solidária, articulando saberes tradicionais quilombolas com conhecimentos técnicos e processos de autogestão. Sua implantação ocorre de forma participativa e contínua, organizada em etapas interligadas:
1. Mobilização e escuta comunitária, por meio de assembleias, reuniões abertas e visitas às propriedades, onde são identificadas as demandas produtivas, sociais e ambientais do território.
2. Organização coletiva da produção, com apoio aos Grupos de Trabalhos (Agricultoras em Ação, Jovens em Movimento, Quitandeiras e OCS), promovendo mutirões, planejamento produtivo e troca de saberes.
3. Formação técnica e política, incluindo capacitações em agroecologia, produção de bioinsumos, manejo da água, saneamento ecológico, educação ambiental, gestão cooperativista e economia solidária.
4. Estruturação do acesso a mercados, organizando a comercialização por meio de programas institucionais (PAA, PNAE) e mercados locais, reduzindo a dependência de atravessadores.
5. Monitoramento e avaliação coletiva, realizados em reuniões periódicas, assembleias da cooperativa e acompanhamento direto às famílias, permitindo ajustes permanentes na metodologia. A participação da comunidade ocorre em todas as etapas do processo. Jovens, mulheres, homens e anciões quilombolas participam ativamente das tomadas de decisão, da execução das ações e da avaliação dos resultados, garantindo o protagonismo comunitário e o respeito às dinâmicas culturais do território. A interação da cooperativa com a comunidade se dá de forma horizontal, baseada na confiança, na corresponsabilidade e na construção coletiva das soluções. Como evidências do impacto positivo da Tecnologia Social, destacam-se: o crescimento do número de cooperados(as), atualmente cerca de 80; a certificação orgânica participativa de 17 agricultores(as) pela OCS GAIA; o fortalecimento da renda das famílias agricultoras; a permanência de jovens no campo; o protagonismo feminino nos grupos produtivos; e a ampliação do acesso a políticas públicas e mercados institucionais. Esses resultados demonstram a efetividade da Tecnologia Social como estratégia de transformação social, econômica, ambiental e cultural em territórios quilombolas.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da (TS) Aquilombar Jovem: Plantando Sementes e Criando Raízes nos Vales baseia-se, prioritariamente, em recursos humanos e organizativos, caracterizando-se como uma tecnologia social de baixo custo e alta capacidade de reaplicação. O primeiro recurso fundamental é a existência de agricultoras e agricultores familiares dispostos a produzir alimentos e a se organizar coletivamente em seus territórios. A tecnologia parte do fortalecimento de pessoas, vínculos comunitários e do reconhecimento dos saberes tradicionais quilombolas. O segundo recurso essencial é a organização coletiva, por meio da criação ou fortalecimento de grupos, associações ou cooperativas, com base em princípios da autogestão, da economia solidária e da cooperação. Para isso, são necessários espaços comunitários simples para reuniões, formações e planejamento coletivo, que podem ser cedidos por parceiros locais, como sindicatos, associações comunitárias, escolas ou igrejas. No campo material, os recursos demandados são básicos: documentos legais para formalização das organizações, materiais de escritório, meios simples de comunicação, instrumentos de registro e acompanhamento das atividades, além de estruturas já existentes nas propriedades familiares para produção agroecológica. A tecnologia pode ser implantada tanto em territórios que ainda não possuem organizações formalizadas quanto em comunidades que já contam com associações ou cooperativas, mas necessitam de reorganização.
Resultados Alcançados
A (TS) Aquilombar Jovem: Plantando Sementes e Criando Raízes nos Vales hoje é marcada pela participação ativa de jovens na gestão da cooperativa, com 57,14% da diretoria composta por jovens quilombolas entre 20 e 29 anos. Atualmente, a cooperativa reúne cerca de 80 cooperados(as), entre jovens, mulheres, homens e anciões, quilombolas e não quilombolas, impactando diretamente aproximadamente 80 famílias agricultoras e, de forma indireta, mais de 300 pessoas do território. Nos últimos três anos, a organização da produção e da comercialização coletiva possibilitou o aumento da renda das famílias, contribuindo para a permanência digna de jovens no campo, redução do êxodo rural e fortalecimento da economia local. No campo econômico-produtivo, destaca-se a formalização de 7 agroindústrias da agricultura familiar, especialmente lideradas por mulheres, possibilitando a ampliação do acesso a mercados institucionais e privados. Algumas agricultoras passaram a alcançar faturamento mensal de até R$ 10.000,00 com a produção e comercialização de quitandas e alimentos processados, fortalecendo a autonomia econômica feminina e o reconhecimento do trabalho das mulheres como atividade produtiva essencial para a renda familiar. No âmbito do protagonismo feminino, a tecnologia social contribuiu para o fortalecimento da autoestima, da autonomia e da participação das mulheres em espaços de decisão. Agricultoras vinculadas à cooperativa foram reconhecidas em premiações e processos formativos, como a participação no Prêmio BRB de Impacto Social, em Brasília, além de capacitações, mentorias e concursos que ampliaram suas competências técnicas, organizativas e de gestão. A cooperativa também obteve reconhecimento institucional ao conquistar o 1º lugar no Programa Nutrir+ (NutrirMais), garantindo a captação de R$ 20.000,00 em capital social, recurso reinvestido no fortalecimento da estrutura organizativa. Soma-se a isso a aprovação de projeto junto ao Fundo Casa Socioambiental, com a captação de R$ 100.000,00 para aquisição de um veículo utilitário (Fiorino), promovendo maior autonomia logística, redução da dependência do poder público e melhoria no escoamento da produção. Os resultados são acompanhados por meio de registros de comercialização, relatórios financeiros, atas de reuniões, visitas aos cooperados, participação em formações, mutirões comunitários e avaliações coletivas, que permitem monitorar impactos econômicos, sociais e organizativos.
Público atendido
- Afrodescendentes
- Agricultores Familiares
- Idosos
- Jovens
- Mulheres
- Famílias de Baixa Renda
- Lideranças Comunitárias
- Povos Tradicionais
- Quilombolas
- Trabalhadores Rurais
Comentários