Objetivo
As periferias urbanas brasileiras, já marcadas pela escassez de infraestrutura pública adequada e pelo adensamento construtivo, são também as mais expostas aos efeitos da crise climática. Eventos como calor extremo, inundações e processos erosivos tornam-se cada vez mais recorrentes. A expansão de modelos urbanos pautados por soluções cinza convencionais aprofunda a vulnerabilidade socioambiental
Problema Solucionado
As periferias urbanas brasileiras, já marcadas pela escassez de infraestrutura pública adequada e pelo adensamento construtivo, são também as mais expostas aos efeitos da crise climática. Eventos como calor extremo, inundações e processos erosivos tornam-se cada vez mais recorrentes. A expansão de modelos urbanos pautados por soluções cinza convencionais aprofunda a vulnerabilidade socioambiental dessas áreas ao desconsiderar os recursos e potencialidades locais, bem como os modos de construir historicamente desenvolvidos nesses contextos. Embora sejam as principais cuidadoras do espaço urbano periférico, as mulheres permanecem afastadas dos processos formais de decisão. Reconhecendo esse protagonismo e a centralidade do cuidado nas periferias, a tecnologia social AnP BIO fortalece a participação feminina para que o planejamento e a produção do espaço se tornem instrumentos de enfrentamento às desigualdades urbanas e aos impactos crescentes da crise climática.
Descrição
A iniciativa contribui para enfrentar de forma direta os efeitos combinados da crise climática e das desigualdades urbanas nas periferias de Belo Horizonte, marcadas pela escassez de infraestruturas verdes, pelo adensamento construtivo e pela baixa presença do Estado em ações de cuidado ambiental. Esses fatores intensificam a ocorrência de ilhas de calor, inundações e erosão. A proposta atua sobre esse cenário ao reunir e capacitar mulheres de comunidades periféricas em técnicas construtivas de baixo impacto, manejo de recursos naturais e implementação de Soluções Baseadas na Natureza, criando alternativas viáveis para regeneração ambiental e adaptação climática.
A iniciativa oferece respostas concretas ao substituir a dependência de soluções cinza, que agravam a impermeabilização e desconsideram as dinâmicas locais, por processos que valorizam recursos do território e práticas já existentes. Ao articular saber técnico-científico com saberes populares e milenares, reafirma epistemologias historicamente marginalizadas, amplia o repertório de soluções possíveis, fortalecendo o protagonismo feminino como vetor de transformação socioambiental.
Em 2025, a metodologia foi reconhecida nacionalmente pelo edital Periferias Verdes Resilientes do Ministério das Cidades, selecionada para desenvolver soluções urbanísticas escaláveis de adaptação climática em territórios periféricos. O resultado consolida a capacidade da iniciativa em dialogar com políticas públicas e evidencia seu potencial de reaplicação, um dos critérios centrais do Desafio FBB 40 anos. A principal adaptação metodológica neste caso consistiu em ampliar a escala das intervenções para soluções urbanísticas.
A abordagem pedagógica da tecnologia social apresentada, aliada ao foco na autogestão, garante engajamento contínuo e possibilita que as mulheres se tornem multiplicadoras de respostas climáticas replicáveis em diferentes contextos.
Recursos Necessários
Para a implantação de uma unidade da tecnologia social são necessários:
Recursos humanos:
– 1 arquiteta com experiência em assessoria técnica e bioconstrução;
– 1 educadora ou facilitadora com conhecimento em pedagogia popular e gênero;
– 1 instrutora de técnicas construtivas sustentáveis (bioconstrução);
– 1 estagiária de arquitetura ou áreas afins;
– Voluntárias locais ou agentes comunitárias para apoio logístico e mobilização.
Materiais e equipamentos:
– Materiais pedagógicos: cartilhas impressas, pranchetas, folhas A4, papel manteiga, lápis, canetas, escalímetros, trenas, calculadoras e materiais de apoio visual (como maquetes e jogos didáticos);
– Materiais para oficinas práticas: ferramentas básicas (pás, enxadas, carrinhos de mão, baldes, desempenadeiras), Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), lonas, terra, bambu, sementes e outros insumos naturais conforme a técnica adotada;
– Recursos audiovisuais para documentação e registro (celular ou câmera, tripé, gravador de áudio);
– Espaço físico comunitário para realização dos encontros (sala multiuso, sede de associação ou pátio aberto)
Resultados Alcançados
Desde seu início em 2023, o projeto ANP Bio registrou 284 participações de mulheres moradoras de regiões periféricas em suas atividades formativas, tendo sido realizadas 159 horas/aula. Foram realizadas intervenções em 80m2 de áreas coletivas, com a implantação de telhado verde, revestimentos de piso e parede em terra e bambu, mobiliário em taipa de pilão e reaproveitamento de materiais, beneficiando diretamente cerca de 630 pessoas envolvidas nos mutirões e moradoras do território. Alcançou ainda 172 participações de pessoas de fora da comunidade que colaboraram nas atividades mão na massa. Essas ações promoveram melhorias ambientais e fortaleceram o uso coletivo dos espaços.
O acompanhamento dos resultados é feito de forma participativa, por meio de observação direta, rodas de conversa e questionários aplicados no início e no final das formações. Esses instrumentos avaliam mudanças de percepção, aumento da autoestima e aquisição de conhecimentos técnicos pelas participantes. Um dos principais indicadores de sucesso é o fortalecimento do protagonismo feminino nas decisões sobre o território, medido tanto por depoimentos quanto por engajamento em ações coletivas após a formação.
Os impactos qualitativos são significativos. Muitas mulheres relatam o sentimento de pertencimento, o orgulho de ver seu trabalho valorizado publicamente e a transformação do olhar sobre si mesmas e sobre o território onde vivem. Uma participante relatou: “Antes eu achava que isso não era coisa para mulher. Agora vejo que posso ensinar outras pessoas a construir com a terra, com as plantas, com a natureza.” Além disso, algumas participantes passaram a aplicar as técnicas aprendidas em suas próprias casas, como fabricação de tintas naturais e aplicação de reboco de barro.
O projeto também gerou efeitos comunitários, como a reativação de espaços ociosos e a mobilização de moradores em torno de pautas ambientais. O uso de materiais naturais e de baixo custo promoveu uma nova estética urbana e reforçou a conexão entre práticas sustentáveis e justiça socioambiental.
Público atendido
Mulheres
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