Objetivo
Objetivo primordial do projeto é promover a dignidade íntima e combater a precariedade menstrual como um meio de garantir a igualdade de gênero, racial e o direito fundamental à educação para pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
Problema Solucionado
A fase inicial do projeto, vinculada à iniciativa "Sangrando Amor", consistiu em um diagnóstico prático do problema. A intervenção começou com ações de educação menstrual e a implementação de um protótipo de baixa fidelidade: um dispenser manual, confeccionado a partir da reutilização de caixas de papelão (caixas de uísque), instalado nos banheiros das escolas. A observação direta do uso deste protótipo revelou uma evidência crítica que reorientou todo o projeto: o esgotamento sistemático e rápido dos absorventes. A análise qualitativa indicou que este comportamento não se tratava de vandalismo, mas de uma resposta racional à percepção de escassez, onde as estudantes retiravam múltiplos itens por receio de que o estoque não fosse reposto.ou para compartilhar com familiares ("retirada excessiva... o medo de acabar o estoque, ou levar para algum parente"). Este "fracasso" do protótipo inicial foi, na verdade, o sucesso metodológico mais importante do projeto, pois invalidou a hipótese de que o acesso irrestrito seria uma solução viável e forneceu o critério fundamental para a fase seguinte: a necessidade de um sistema de controle.
Descrição
O desenvolvimento do dispenser Vênus foi conduzido por um processo metodológico rigoroso e iterativo, fundamentado nos princípios da pesquisa-ação e da prototipagem evolutiva. Esta abordagem permitiu que a solução fosse moldada e refinada com base em evidências empíricas coletadas diretamente no campo, garantindo que o produto final respondesse de forma precisa e eficaz aos desafios reais do contexto de aplicação. O método foi desdobrado em quatro fases distintas.
Fase 1: Diagnóstico e Validação do Problema em Campo
A fase inicial do projeto, vinculada à iniciativa "Sangrando Amor", consistiu em um diagnóstico prático do problema. A intervenção começou com ações de educação menstrual e a implementação de um protótipo de baixa fidelidade: um dispenser manual, confeccionado a partir da reutilização de caixas de papelão (caixas de uísque), instalado nos banheiros das escolas.
A observação direta do uso deste protótipo revelou uma evidência crítica que reorientou todo o projeto: o esgotamento sistemático e rápido dos absorventes. A análise qualitativa indicou que este comportamento não se tratava de vandalismo, mas de uma resposta racional à percepção de escassez, onde as estudantes retiravam múltiplos itens por receio de que o estoque não fosse reposto ou para compartilhar com familiares ("retirada excessiva... o medo de acabar o estoque, ou levar para algum parente"). Este "fracasso" do protótipo inicial foi, na verdade, o sucesso metodológico mais importante do projeto, pois invalidou a hipótese de que o acesso irrestrito seria uma solução viável e forneceu o critério fundamental para a fase seguinte: a necessidade de um sistema de controle.
Fase 2: Definição dos Critérios Técnicos e Funcionais
Com base na evidência empírica da Fase 1, a equipe estabeleceu um conjunto claro de requisitos técnicos e funcionais que o protótipo final deveria atender para ser eficaz e sustentável:
Dispensação Controlada: Implementação de um sistema de acesso individualizado por meio de senha pessoal e matrícula para garantir uma distribuição equitativa e prevenir o esgotamento do estoque.
Monitoramento e Coleta de Dados: O sistema deveria registrar cada retirada (ou tentativa), enviando os dados a um servidor para análise de impacto e planejamento logístico.
Sustentabilidade e Replicabilidade: Utilização de materiais de baixo custo, duráveis e adequados ao ambiente de instalação, optando-se por MDF resistente à umidade.
Autonomia Operacional: Inclusão de uma bateria interna para garantir o funcionamento contínuo do dispenser mesmo durante quedas de energia elétrica.
Segurança e Gerenciamento: O dispositivo deveria possuir um compartimento de armazenamento trancado, acessível apenas por pessoal autorizado para reabastecimento e manutenção.
Fase 3: Desenvolvimento Técnico e Construção do Protótipo Funcional
Nesta fase, os critérios definidos foram traduzidos em um protótipo funcional, cuja arquitetura técnica é detalhada a seguir:
Estrutura Física: Caixa fabricada em MDF com corte a laser, contendo dois andares de armazenamento com capacidade total para até 30 absorventes descartáveis regulares.
Sistema Eletromecânico de Dispensação: Cada andar é equipado com um servomotor (modelo MG996R) acoplado a uma mola helicoidal. A rotação do motor move a mola, que por sua vez transporta o absorvente até a abertura de saída.
Sistema de Controle Central: O cérebro do sistema é um microcontrolador DOIT ESP32 (ESP32-WROOM-32D), responsável por gerenciar a interface com o usuário, acionar os motores, monitorar os sensores e gerenciar a conectividade Wi-Fi para transmissão de dados.
Interface com o Usuário (IHM): A interação é realizada através de um display LCD de 20 colunas e 4 linhas, que exibe o status do estoque e instruções de uso, e um teclado matricial rígido de 4x4, para a inserção da matrícula e senha.
Sistema de Alimentação: O dispenser é alimentado por uma fonte de 15V DC. Para garantir a autonomia, possui um sistema de backup composto por três baterias de íon de lítio (modelo 18650) gerenciadas por uma placa de proteção BMS (Battery Management System), que oferece até 6 horas de funcionamento ininterrupto em caso de falta de energia.
O dispenser é o resultado de um trabalho de dois anos ( 2022 a 2024) na comunidade, a partir de uma necessidade identificada neste período e que teve o apoio e aceitação da comundade
Recursos Necessários
O custo unitário da produção do dispenser, que ocorreu em 2024, foi estimado em 1.000,00 (Hum mil reais), considerando aqui recursos materiais, como peças eletrônicas, caixas de MDF para estrutura e design no acabamento, como impressão da arte que reveste a estrutura (plotagem)
Recursos humanos atuaram, na época, de forma voluntária, Ficando a produção concentrada em apenas dois voluntários que detinham conhecimento em eletrônica e informática (programação), A Organização Ciclo Fraterno contou com o apoio da Sergipetec empresa vinculada ao governo do estado, que permitiu a utilização da sala de prototipagem para a fabricação e montagem do dispensador
Resultados Alcançados
A implementação do projeto Vênus gerou resultados concretos e mensuráveis, demonstrando sua aplicação prática e seu impacto direto na comunidade escolar. Os resultados são apresentados tanto em termos quantitativos, relativos à utilização dos dispensers, quanto qualitativos, relacionados à produção de conhecimento e ao reconhecimento institucional da iniciativa.
O projeto Vênus está em operação em quatro instituições de ensino no estado de Sergipe, atendendo a um público total de 874 estudantes. No total, foram disponibilizadas 263 unidades de absorventes por meio dos dispensers.
Estes números representam mais do que uma métrica logística; eles simbolizam 263 momentos em que uma estudante em necessidade teve seu problema imediato resolvido com dignidade e privacidade, evitando potenciais situações de constrangimento, desconforto ou ausência da sala de aula. A alta adesão em instituições como o CODAP/UFS e o IFS-Socorro evidencia a aceitação e a confiança no sistema por parte da comunidade estudantil.
Além dos dados de uso, o projeto alcançou marcos importantes que demonstram seu valor e sua contribuição para além do serviço direto:
Produção e Disseminação de Conhecimento: O projeto gerou produção acadêmica com a publicação do resumo expandido "Vênus: Absorvendo Dignidade" nos anais do I Encontro de Tecnologia Social do Nordeste. Este resultado formaliza a contribuição da iniciativa para o campo da tecnologia social e compartilha o modelo desenvolvido com uma comunidade mais ampla de pesquisadores e praticantes.
Reconhecimento Institucional e Validação Externa: A iniciativa foi laureada com o Selo ODS Sergipe 2024. Este reconhecimento, emitido pelo Movimento Nacional ODS, serve como uma validação externa e credível do alinhamento do projeto com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e de seu impacto positivo na comunidade.
Público atendido
Afrodescendentes
Adolescentes
Mulheres
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