Objetivo
O objetivo geral da iniciativa Rendar Saberes: Tecnologia Social de Moda Sustentável e Economia do Cuidado é estruturar e disseminar uma tecnologia social baseada na renda renascença, que promova produção sustentável, autonomia econômica de mulheres e
fortalecimento comunitário, a partir da valorização de saberes tradicionais e do cuidado com as pessoas e o território.
Objetivos específicos
Como objetivos específicos, a iniciativa busca: formar mulheres e crianças na prática da renda renascença, garantindo a transmissão intergeracional do saber; organizar processos coletivos de produção artesanal com uso de matéria-prima natural e durável; fortalecer redes de economia solidária e relações de consumo responsável; ampliar a geração de renda local de forma ética e sustentável; promover o cuidado integral das mulheres envolvidas, reconhecendo o tempo do
fazer como valor produtivo; e sistematizar a metodologia da tecnologia social, possibilitando sua reaplicação em outros territórios.
Problema Solucionado
A iniciativa Rendar Saberes nasce da realidade vivida por mulheres da Comunidade da Aldeia e Carapicuíba, marcada pela precarização do trabalho feminino, baixa renda, informalidade e pouca valorização dos saberes tradicionais. Muitas mulheres, especialmente negras, indígenas, idosas e migrantes, encontram poucas oportunidades de geração de renda compatíveis com o cuidado com a família, o território e sua saúde física e emocional. Soma-se a isso um modelo dominante de produção têxtil baseado na exploração do trabalho,no descarte rápido e na desvalorização do tempo do fazer artesanal. Nesse contexto, a renda renascença, saber tradicional transmitido entre gerações, corria o risco de desaparecer ou permanecer invisibilizada. A ausência de políticas de formação continuada, organização produtiva e reconhecimento cultural agravava a vulnerabilidade dessas mulheres. A tecnologia social responde a esse cenário ao estruturar processos coletivos de formação, produção sustentável com matéria-prima durável e valorização do cuidado, criando condições reais de autonomia econômica, fortalecimento comunitário e permanência dos saberes no território,podendo ser implantada em contextos semelhantes.
Descrição
A Oca Escola Cultural atua desde 1996 na Comunidade da Aldeia de Carapicuíba (SP), desenvolvendo ações continuadas de cultura, educação, cuidado e geração de renda. Sua trajetória é construída na convivência com os moradores, na escuta das necessidades locais e na valorização dos saberes tradicionais. Nesse percurso, consolidou-se o Coletivo Rendeiras da Aldeia, cuja experiência de aproximadamente vinte anos fundamenta a tecnologia social Rendar Saberes, articulando formação, produção artesanal sustentável, pesquisa cultural, cuidado e organização coletiva do trabalho.
A metodologia compreende cinco fases integradas, desenvolvidas com a participação da comunidade e passíveis de adaptação a outros territórios:
1. Escuta, pesquisa e reconhecimento dos saberes
Rodas de conversa e encontros de convivência permitem conhecer as histórias de vida, as trajetórias de trabalho e os conhecimentos das participantes. As mulheres identificam necessidades, desafios e prioridades, orientando o planejamento das atividades. A pesquisa e a documentação dos cantos de trabalho presentes no rendar valorizam memórias afetivas, rurais e migrantes. Compartilhados durante a produção, esses cantos aproximam as participantes, fortalecem o pertencimento e integram a transmissão dos saberes.
2. Formação técnica e transmissão intergeracional
As rendeiras mais experientes atuam como mestras na formação de novas participantes, ensinando preparação dos materiais, desenho, execução dos pontos e acabamento. A aprendizagem acontece pela observação, experimentação e prática compartilhada, respeitando o ritmo de cada pessoa. Crianças e adolescentes participam de atividades de aprendizagem e convivência com as mestras, favorecendo a continuidade da tradição. Os cantos são transmitidos oralmente, aproximando trabalho manual, corpo, voz e memória.
3. Produção sustentável e organização coletiva
A produção utiliza matéria-prima 100% algodão e valoriza a qualidade, o acabamento e a durabilidade das peças. As decisões sobre divisão de tarefas, prazos, valores e participação em ações externas são discutidas em grupo. A organização do trabalho considera as condições de saúde, as responsabilidades familiares e o tempo necessário ao fazer artesanal. A economia do cuidado orienta as relações: escuta, acolhimento e respeito aos ritmos das mulheres integram o processo produtivo.
4. Valorização cultural, circulação e geração de renda
As peças circulam em feiras, exposições, desfiles e espaços de economia solidária, ampliando oportunidades de comercialização e reconhecimento do trabalho das rendeiras. A aproximação entre produtoras e público valoriza a origem das peças, os conhecimentos envolvidos e as histórias de quem as produz. Os cantos de trabalho integram apresentações, registros audiovisuais e ações educativas, tornando visível a dimensão cultural da iniciativa.
5. Avaliação, sistematização e reaplicação
O acompanhamento acontece em encontros semanais, nos quais as participantes avaliam a formação, a produção, a comercialização e os efeitos das atividades em sua vida cotidiana. As dificuldades identificadas orientam ajustes nos procedimentos. A avaliação anual reúne os aprendizados e subsidia o planejamento seguinte, com metas definidas coletivamente. Registros escritos, fotográficos, audiovisuais e musicais documentam técnicas, experiências e princípios metodológicos, apoiando a continuidade e a reaplicação da tecnologia social.
A interação entre a Oca e a comunidade atravessa todas essas etapas. As mulheres participam da concepção, execução, avaliação e aprimoramento da iniciativa. A instituição oferece espaço, estrutura, apoio técnico, formação continuada, articulação de parcerias e acesso a circuitos culturais e comerciais. Designers, artistas e outros especialistas contribuem para a qualificação e a circulação da produção, respeitando os conhecimentos e as decisões das rendeiras.
A iniciativa envolve aproximadamente 30 mulheres rendeiras e aprendizes e 20 crianças e adolescentes. O Encontro Anual de Rendeiras reúne cerca de 50 mulheres, ampliando as trocas entre gerações e territórios. O alcance indireto estimado é de 300 pessoas, entre familiares, moradores e públicos das ações culturais. Esses números representam diferentes formas de participação e não devem ser somados como públicos distintos.
O monitoramento considera participação e permanência nas atividades, formação de novas rendeiras, continuidade da produção, geração de renda e circulação das peças. Os registros do processo e os depoimentos das participantes constituem evidências da interação comunitária. Os relatos apontam fortalecimento da autoestima, pertencimento, cuidado mútuo e valorização dos saberes. A continuidade do coletivo por aproximadamente vinte anos, a transmissão intergeracional e a presença em feiras e exposições evidenciam a permanência da iniciativa e seus resultados sociais, culturais e econômicos.
Recursos Necessários
A implantação da tecnologia social Rendar Saberes requer espaço acessível, ventilado, iluminado e acolhedor para oficinas, produção coletiva, rodas de conversa e armazenamento. O ambiente deve contar com mesas, cadeiras confortáveis, iluminação de apoio e armários para organizar materiais e peças.
Para o ensino e a produção da renda renascença, são necessários lacê e linhas 100% algodão, agulhas, alfinetes, tesouras, papel manteiga para desenhos e moldes. Amostras de renda e mostruários de pontos auxiliam a aprendizagem e a transmissão dos saberes.
A montagem e o acabamento das peças demandam máquina de costura, tecidos de fibras naturais, como linho e algodão, e aviamentos. Etiquetas e embalagens apoiam a identificação, a conservação e a comercialização dos produtos.
Para planejamento, acompanhamento e documentação, são utilizados cadernos, materiais de papelaria, computador com acesso à internet e celular ou câmera com captação de áudio e vídeo. Esses recursos permitem registrar técnicas, cantos de trabalho, depoimentos e atividades, além de apoiar a divulgação, a comercialização e a sistematização da metodologia para sua reaplicação.
Resultados Alcançados
Desde sua implantação, a tecnologia social Rendar Saberes tem gerado resultados concretos na vida das mulheres participantes e no território da Comunidade da Aldeia de Carapicuíba. Atualmente, a iniciativa envolve diretamente dezenas de mulheres rendeiras, majoritariamente negras, indígenas, idosas e migrantes, além de crianças, adolescentes e jovens que participam dos processos de aprendizagem e transmissão dos saberes. A formação contínua resultou na ampliação do número de mulheres capacitadas na renda renascença, fortalecendo a autonomia econômica e a permanência do saber tradicional no território.
Do ponto de vista quantitativo, a iniciativa contribuiu para a geração regular de renda para as participantes, ampliando a participação das mulheres em circuitos de economia solidária, feiras, exposições e parcerias culturais. O território passou a ser reconhecido como um polo de renda renascença, fortalecendo a produção local e beneficiando indiretamente diversas famílias. Também houve aumento no número de ações formativas, encontros semanais de produção, rodas de conversa e apresentações culturais relacionadas aos cantos de trabalho.
Os resultados qualitativos são evidenciados pelo fortalecimento dos vínculos comunitários, pela elevação da autoestima das mulheres e pelo reconhecimento de seus saberes como conhecimento legítimo e valioso.
Relatos das participantes apontam sentimentos de pertencimento, cuidado mútuo, segurança e orgulho pelo trabalho realizado. As mulheres destacam a importância do respeito aos seus tempos, da escuta coletiva e da possibilidade de conciliar geração de renda com saúde, cuidado familiar e vida comunitária.
A transmissão dos saberes para crianças, dolescentes e jovens fortalece a identidade cultural e o sentido de continuidade.
O acompanhamento dos resultados é realizado de forma contínua e participativa, por meio de encontros semanais de avaliação e acompanhamento, nos quais são observados aspectos produtivos, econômicos, sociais e de bem-estar. Esses encontros geram ajustes permanentes na metodologia. Anualmente, é realizada uma avaliação consolidada, articulada a um planejamento anual com metas claras, definidas coletivamente. O monitoramento também inclui registros escritos, fotográficos, audiovisuais e musicais, além de depoimentos das participantes, permitindo a análise dos impactos econômicos, sociais, culturais e simbólicos da iniciativa.
Esses resultados demonstram que Rendar Saberes promove transformações duradouras.
Público atendido
- Adolescentes
- Artesãos
- Empreendedores
- Jovens
- Crianças
- Idosos
- Mulheres
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