Objetivo
Transformar o trabalho artesanal do ladrilho hidráulico em uma tecnologia social de cuidado, capaz de ampliar autonomia, circulação urbana, vínculos e oportunidades de vida para pessoas em sofrimento psíquico, consolidando processos de inclusão produtiva e cidadã.
Objetivos específicos
Promover formação técnica em ladrilho hidráulico, envolvendo os usuários em todas as etapas do processo produtivo. Fortalecer vínculos, autonomia e autoestima por meio do trabalho coletivo como dispositivo de cuidado. Estimular autogestão e geração de renda com a comercialização dos produtos. Ampliar circulação urbana e combater o estigma. Sistematizar a metodologia para garantir sua reaplicação em outros serviços.
Problema Solucionado
A Oficina de Ladrilho Hidráulico enfrenta um conjunto de problemas sociais estruturais que afetam pessoas em sofrimento psíquico, especialmente o isolamento, a baixa circulação pela cidade e a falta de oportunidades reais de participação social. Muitos usuários dos serviços de saúde mental vivenciam trajetórias marcadas por estigma, desemprego, rupturas de vínculos e redução das possibilidades de exercer um trabalho significativo, o que compromete a autonomia, a autoestima e o reconhecimento social. A ausência de espaços que articulem cuidado, criação e produção impede que essas pessoas tenham experiências concretas de pertencimento e valorização de suas capacidades. Soma-se a isso a escassez de iniciativas que promovam renda e ampliem a presença dos usuários na vida urbana, reduzindo desigualdades e barreiras simbólicas. A tecnologia social da oficina responde a esse cenário ao oferecer um ambiente de trabalho coletivo, aprendizado técnico, convivência e participação cidadã, criando condições reais de inclusão produtiva, circulação social e fortalecimento subjetivo.
Descrição
A Oficina de Ladrilho Hidráulico nasceu dentro do Hospital Psiquiátrico Dr. Cândido Ferreira, quando pacientes expressaram a necessidade de trabalho, renda e participação social. Para garantir continuidade, transparência e gestão democrática desse processo, trabalhadores da saúde mental, usuários, familiares e membros da comunidade organizaram a criação da Associação Cornélia Vlieg, entidade sem fins lucrativos responsável pela administração financeira, fiscal e organizacional da oficina. Essa origem comunitária sustenta a proposta de transformar o trabalho artesanal em estratégia de cuidado, autonomia e circulação social.
A metodologia inicia-se com acolhida dos usuários e integração às rotinas da oficina. O processo de produção envolve aprendizado técnico das etapas do ladrilho hidráulico — preparo das misturas, pigmentação, montagem dos moldes, prensagem, cura e acabamento — sempre realizado de forma coletiva. São adotados procedimentos padronizados (tempo de mistura, pesagem, organização do espaço) que garantem qualidade e replicabilidade. A autogestão é central: os participantes decidem sobre distribuição de tarefas, cronograma, participação em eventos, encomendas e uso dos recursos financeiros provenientes das vendas.
A interação com a comunidade acontece por meio de feiras, exposições, visitas guiadas, parcerias com arquitetos, universidades e equipamentos públicos. Clientes e instituições acompanham o processo, fortalecendo o reconhecimento social dos usuários. A oficina se tornou referência na cidade, ampliando a circulação urbana dos participantes e possibilitando experiências concretas de pertencimento.
Os resultados evidenciam impacto significativo: aumento consistente da frequência e participação dos usuários; fortalecimento de vínculos; melhora da autoestima e autonomia; geração de renda com caixa coletivo superior a R$ 30 mil; e ampliação das parcerias e encomendas externas. Depoimentos dos participantes revelam ganhos subjetivos importantes, e os indicadores de produção e vendas confirmam a sustentabilidade e a relevância social da tecnologia.
Essa sistematização demonstra que a integração entre trabalho, cuidado e comunidade produz transformações reais e pode ser reaplicada em outros serviços de saúde mental.
Recursos Necessários
Para a implantação de uma unidade da Oficina de Ladrilho Hidráulico são necessários recursos que garantam a produção artesanal, a segurança dos participantes e o acompanhamento psicossocial. Em termos de pessoal, recomenda-se ao menos um profissional de referência (psicólogo, terapeuta ocupacional, educador social ou arte-educador) responsável pela condução do grupo, além de um técnico com conhecimento em processos artesanais, passível de capacitação pela própria metodologia. O apoio eventual de equipe multiprofissional da rede de saúde mental contribui para o acompanhamento clínico e social dos usuários.
Os equipamentos essenciais incluem uma prensa hidráulica, misturador (furadeira com pá), formas de latão ou pvc, mesas resistentes, prateleiras ou estantes para cura, além de ferramentas manuais como escova de mental, peneira, bisnagas, baldes e instrumentos de acabamento. É indispensável a disponibilidade de EPIs, como luvas, botas, máscaras e avental.
Entre os materiais de consumo, são utilizados cimento branco e cinza, areia fina peneirada, areia grossa, pigmentos, desmoldantes e itens de limpeza.
A infraestrutura física deve contar com espaço ventilado de 20 a 30 m² para produção, área coberta para secagem, ponto de água e local seguro para armazenamento de insumos.
Para a gestão da oficina, são necessários materiais simples de registro da produção, caixa coletivo e meios de divulgação. Esses recursos garantem a plena aplicação da tecnologia social
Resultados Alcançados
A Oficina de Ladrilho Hidráulico atende diretamente 12 a 18 usuários por ciclo, totalizando mais de 60 participantes desde sua criação. Observou-se aumento de 40% na adesão às atividades coletivas e redução expressiva de situações de isolamento social. A produção mensal varia entre 250 e 500 peças, gerando um caixa coletivo superior a R$ 30 mil, proveniente unicamente das vendas, evidenciando sustentabilidade e inclusão produtiva.
Entre os resultados qualitativos, destacam-se melhorias consistentes na autoestima, autonomia, convivência e circulação pela cidade. Depoimentos dos participantes revelam sentimentos de reconhecimento, pertencimento e valorização de suas capacidades. A oficina também impactou trajetórias de vida: usuários com histórico de sofrimento psíquico associado ao uso abusivo de álcool e outras drogas conseguiram retomar projetos pessoais, estabilizar quadros clínicos e ingressar no mercado formal de trabalho, mostrando que a tecnologia social produz efeitos concretos na reinserção social e laboral.
O acompanhamento é realizado pela equipe multiprofissional do serviço, por meio de registros de frequência, observação direta, reuniões de grupo, avaliações periódicas, depoimentos dos usuários, monitoramento da produção e das vendas. Esses indicadores permitem mensurar efeitos subjetivos, sociais e econômicos, orientar ajustes na metodologia e comprovar a efetividade da oficina como dispositivo de cuidado, autonomia e participação comunitária.
Público atendido
- Adulto
- Outros
- População em Situação de Rua
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