O objetivo geral da iniciativa Rendar Saberes: Tecnologia Social de Moda Sustentável e Economia do Cuidado é estruturar e disseminar uma tecnologia social baseada na renda renascença, que promova produção sustentável, autonomia econômica de mulheres e fortalecimento comunitário, a partir da valorização de saberes tradicionais e do cuidado com as pessoas e o território.
Como objetivos específicos, a iniciativa busca: formar mulheres e crianças na prática da renda renascença, garantindo a transmissão intergeracional do saber; organizar processos coletivos de produção artesanal com uso de matéria-prima natural e durável; fortalecer redes de economia solidária e relações de consumo responsável; ampliar a geração de renda local de forma ética e sustentável; promover o cuidado integral das mulheres envolvidas, reconhecendo o tempo do fazer como valor produtivo; e sistematizar a metodologia da tecnologia social, possibilitando sua reaplicação em outros territórios com contextos semelhantes de vulnerabilidade social e cultural.
A iniciativa Rendar Saberes nasce da realidade vivida por mulheres da Comunidade da Aldeia de Carapicuíba, marcada pela precarização do trabalho feminino, baixa renda, informalidade e pouca valorização dos saberes tradicionais. Muitas mulheres, especialmente negras, indígenas, idosas e migrantes, encontram poucas oportunidades de geração de renda compatíveis com o cuidado com a família, o território e sua saúde física e emocional. Soma-se a isso um modelo dominante de produção têxtil baseado na exploração do trabalho, no descarte rápido e na desvalorização do tempo do fazer artesanal. Nesse contexto, a renda renascença, saber tradicional transmitido entre gerações, corria o risco de desaparecer ou permanecer invisibilizada. A ausência de políticas de formação continuada, organização produtiva e reconhecimento cultural agravava a vulnerabilidade dessas mulheres. A tecnologia social responde a esse cenário ao estruturar processos coletivos de formação, produção sustentável com matéria-prima durável e valorização do cuidado, criando condições reais de autonomia econômica, fortalecimento comunitário e permanência dos saberes no território, podendo ser implantada em contextos semelhantes de vulnerabilidade social e cultural.
A iniciativa Rendar Saberes estrutura-se como uma tecnologia social de base comunitária, desenvolvida a partir da experiência continuada do Coletivo Rendeiras da Aldeia, articulando formação, produção artesanal sustentável, pesquisa cultural, cuidado coletivo e organização produtiva do território.
A metodologia é organizada em fases integradas, que podem ser adaptadas e reaplicadas em outros contextos comunitários:
Fase 1 – Escuta, pesquisa e reconhecimento dos saberes
O processo inicia-se com rodas de conversa e convivência, nas quais as mulheres compartilham suas histórias de vida, trajetórias de trabalho e relação com a renda renascença. Nessa fase é realizada a pesquisa e documentação da tradição musical do grupo, identificando e registrando os cantos de trabalho entoados durante o rendar, muitas vezes trazidos de suas memórias afetivas, rurais ou migrantes. Esses cantos acompanham o ritmo da produção, organizam o tempo coletivo, fortalecem vínculos e atuam como ferramenta de transmissão de saberes, cuidado emocional e pertencimento.
Fase 2 – Formação técnica e transmissão intergeracional
As mulheres mais experientes atuam como mestras na formação de novas rendeiras, ensinando o passo a passo da renda renascença: preparação dos materiais, desenho, execução dos pontos, acabamento e leitura do tempo do fazer. Crianças, adolescentes e jovens participam desse processo como aprendizes, garantindo a continuidade do saber. Paralelamente, os cantos de trabalho são ensinados oralmente, reforçando a aprendizagem coletiva e o vínculo entre fazer manual, corpo, voz e memória.
Fase 3 – Produção sustentável e organização coletiva do trabalho
A produção é realizada com matéria-prima 100% algodão, durável e de baixo impacto ambiental, valorizando a qualidade e a longevidade das peças. O trabalho é organizado de forma coletiva, respeitando os tempos das mulheres, suas condições de saúde e vida familiar. A economia do cuidado é um princípio estruturante: cuidar do corpo, da escuta, do ritmo e das relações é parte indissociável do processo produtivo.
Fase 4 – Valorização cultural, circulação e geração de renda
As peças produzidas circulam em feiras, exposições, desfiles, parcerias culturais e criativas e espaços de economia solidária, fortalecendo relações de consumo responsável e ampliando a geração de renda local. Os cantos de trabalho integram apresentações, registros audiovisuais e ações educativas, reafirmando a dimensão cultural e imaterial da tecnologia social.
Fase 5 – Sistematização e reaplicação da Tecnologia Social
Todo o processo é continuamente documentado por meio de registros escritos, fotográficos, audiovisuais e musicais, resultando em materiais que orientam a reaplicação da tecnologia social em outros territórios. A sistematização contempla tanto os aspectos técnicos da renda quanto os princípios do cuidado, da organização coletiva e da integração entre trabalho manual e tradição musical.
A iniciativa conta com o apoio institucional da Oca Escola Cultural, que atua na coordenação metodológica, na formação continuada, no cuidado integral das mulheres, na articulação de parcerias e na difusão da tecnologia social. Quando presentes, designers, artistas especialistas contribuem com espaços de circulação, registro, pesquisa e valorização dos saberes tradicionais, respeitando sempre o protagonismo das rendeiras.
Dessa forma Rendar Saberes consolida uma tecnologia social que integra produção sustentável, cultura, memória, música e economia do cuidado, oferecendo uma resposta concreta, sensível e reaplicável aos desafios do consumo e da produção responsáveis.
Desde sua implantação, a tecnologia social Rendar Saberes tem gerado resultados concretos na vida das mulheres participantes e no território da Comunidade da Aldeia de Carapicuíba. Atualmente, a iniciativa envolve diretamente dezenas de mulheres rendeiras, majoritariamente negras, indígenas, idosas e migrantes, além de crianças, adolescentes e jovens que participam dos processos de aprendizagem e transmissão dos saberes. A formação contínua resultou na ampliação do número de mulheres capacitadas na renda renascença, fortalecendo a autonomia econômica e a permanência do saber tradicional no território.
Do ponto de vista quantitativo, a iniciativa contribuiu para a geração regular de renda para as participantes, ampliando a participação das mulheres em circuitos de economia solidária, feiras, exposições e parcerias culturais. O território passou a ser reconhecido como um polo de renda renascença, fortalecendo a produção local e beneficiando indiretamente diversas famílias. Também houve aumento no número de ações formativas, encontros semanais de produção, rodas de conversa e apresentações culturais relacionadas aos cantos de trabalho.
Os resultados qualitativos são evidenciados pelo fortalecimento dos vínculos comunitários, pela elevação da autoestima das mulheres e pelo reconhecimento de seus saberes como conhecimento legítimo e valioso. Relatos das participantes apontam sentimentos de pertencimento, cuidado mútuo, segurança e orgulho pelo trabalho realizado. As mulheres destacam a importância do respeito aos seus tempos, da escuta coletiva e da possibilidade de conciliar geração de renda com saúde, cuidado familiar e vida comunitária. A transmissão dos saberes para crianças, adolescentese jovens fortalece a identidade cultural e o sentido de continuidade.
O acompanhamento dos resultados é realizado de forma contínua e participativa, por meio de encontros semanais de avaliação e acompanhamento, nos quais são observados aspectos produtivos, econômicos, sociais e de bem-estar. Esses encontros geram ajustes permanentes na metodologia. Anualmente, é realizada uma avaliação consolidada, articulada a um planejamento anual com metas claras, definidas coletivamente. O monitoramento também inclui registros escritos, fotográficos, audiovisuais e musicais, além de depoimentos das participantes, permitindo a análise dos impactos econômicos, sociais, culturais e simbólicos da iniciativa.
Esses resultados demonstram que Rendar Saberes promove transformações duradouras, sustentáveis e reaplicáveis, fortalecendo mulheres, território e saberes tradicionais a partir de uma economia baseada no cuidado.
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