Objetivo
Assegurar o acesso, a permanência e o acompanhamento qualificado de pessoas privadas de liberdade na educação superior, por meio de uma metodologia institucional replicável, que integra fluxos administrativos, educacionais e intersetoriais entre universidade, sistema prisional e instituições parceiras.
Problema Solucionado
O acesso à educação superior por pessoas privadas de liberdade enfrenta barreiras estruturais: ausência de conexão com sistemas acadêmicos, falta de fluxo institucional claro, comunicação irregular entre universidades e unidades prisionais, instabilidade de rotinas internas dos presídios, dificuldades de identificação dos estudantes e inexistência de procedimentos que considerem as especificidades do regime fechado. Na prática, mesmo quando há políticas de cotas, elas não se convertem automaticamente em efetiva inclusão, porque o processo depende de articulação intersetorial e ajustes institucionais que raramente existem de forma sistematizada.
Diante dessa realidade, a UFSB identificou que apenas abrir vagas não garantia o exercício do direito à educação. Era necessário criar uma metodologia que organizasse todos os passos — da inscrição ao acompanhamento — de maneira clara, leve, possível e replicável. O Modelo UFSB surge, então, como resposta a esse vazio institucional, oferecendo uma solução simples, efetiva e já validada para que estudantes em privação de liberdade ingressem, permaneçam e concluam seus cursos.
Descrição
O Modelo UFSB de Inclusão Educacional de Pessoas Privadas de Liberdade é uma tecnologia social que sistematiza, de forma clara e replicável, todo o processo de ingresso e acompanhamento de estudantes privados de liberdade no ensino superior. Ele organiza fluxos, protocolos, instrumentos, responsabilidades e rotinas que permitem que universidades e unidades prisionais atuem de maneira coordenada, garantindo que o direito à educação seja efetivamente exercido.
a) Princípios estruturantes
O modelo se baseia em:
simplicidade operacional (procedimentos enxutos, de baixo custo e fácil adoção);
intersetorialidade (integração permanente entre universidade, sistema prisional e escolas intramuros);
segurança jurídica e administrativa (fluxos alinhados às normativas educacionais e penitenciárias);
monitoramento contínuo;
centralidade no estudante, respeitando restrições do cárcere sem restringir direitos educacionais.
b) Etapas da Tecnologia
1. Identificação dos estudantes aptos ao ingresso
As unidades prisionais enviam à UFSB listas de pessoas com ensino médio concluído e interesse em cursar ensino superior. A universidade valida documentação, orienta equipes pedagógicas dos presídios e insere candidatos nos processos seletivos da política de reserva de vagas.
2. Processo de matrícula simplificado e adaptado
Dada a impossibilidade de acesso digital por parte dos estudantes, são criados procedimentos que permitem a entrega de documentos via equipes prisionais. A UFSB utiliza protocolos padronizados de confirmação de matrícula e gera acesso institucional (login, e-mail, número de matrícula) sem exigir interação direta com sistemas acadêmicos.
3. Estabelecimento de protocolos de comunicação UFSB–presídio
A tecnologia define fluxos formais entre:
Pró-Reitoria de Ações Afirmativas (coordenação da política),
Pró-Reitoria de Graduação,
coordenações de curso,
equipes pedagógicas das unidades prisionais,
direções das escolas intramuros.
São criados canais diretos para envio de atividades, acompanhamento de presença, avaliações e demandas específicas do curso.
4. Planejamento da oferta de componentes curriculares
A partir do perfil dos estudantes, as coordenações organizam componentes compatíveis com a realidade prisional (carga horária, avaliações impressas, atividades autodirigidas). O modelo prevê, quando necessário, a adaptação de materiais para estudo off-line.
5. Monitoramento acadêmico contínuo
A UFSB desenvolveu uma planilha de monitoramento que acompanha:
matrícula ativa,
situação em cada componente,
mudança de regime (fechado → semiaberto → aberto),
progressão acadêmica,
necessidades de apoio.
Esse monitoramento permite intervir de forma rápida quando há risco de evasão.
6. Gestão de mudanças de regime e situações específicas
A metodologia define como proceder quando um estudante muda de unidade prisional, obtém progressão de regime ou é liberado. O modelo garante continuidade dos estudos independentemente do regime, evitando perda de vínculo.
c) Participação da comunidade e impacto social
A comunidade beneficiária participa ativamente do processo: estudantes PPL, pedagogos das unidades prisionais, professores da UFSB, diretores escolares e equipes de custódia. Essa integração gera coesão institucional e fortalece vínculos comunitários. A participação dos estudantes ocorre por meio de devolutivas nas atividades, solicitações enviadas via equipe pedagógica e relatos sobre o impacto da formação no cotidiano intramuros e no projeto de vida.
d) Reaplicabilidade
O modelo pode ser implementado em qualquer universidade pública ou privada que tenha interesse em operar políticas de inclusão educacional para pessoas privadas de liberdade. Sua força está na simplicidade: exige apenas articulação interinstitucional, designação de responsáveis e adoção dos protocolos descritos. Já despertou interesse de outras instituições e pode servir como referência nacional para políticas de educação em prisões.
e) O que constitui uma unidade da tecnologia social
Uma unidade da tecnologia corresponde à implantação integral do modelo em uma unidade prisional, incluindo:
estabelecimento dos fluxos de ingresso e matrícula;
criação de canais de comunicação e responsabilidades;
organização da oferta acadêmica;
formação de equipes;
implementação do monitoramento;
acompanhamento efetivo de estudantes PPL.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da tecnologia requer recursos materiais de baixo custo:
computadores e acesso à internet para a equipe universitária;
impressora para produção de materiais, avaliações e orientações;
espaço físico nas unidades prisionais para atividades pedagógicas e administrativas;
materiais de expediente (papel, pastas, carimbos, envelopes);
pastas de monitoramento e arquivos compartilhados;
formulários padronizados de matrícula, encaminhamento e acompanhamento;
materiais educativos impressos para estudo dos estudantes.
Opcionalmente, podem ser utilizados kits de estudo (cadernos, canetas, organizadores) fornecidos pela instituição proponente ou por parceiros. O custo material é reduzido porque a tecnologia se baseia principalmente em organização institucional, acordos formais, comunicação eficiente e procedimentos padronizados.
Resultados Alcançados
O Modelo UFSB gerou resultados expressivos desde sua implantação. Entre os indicadores quantitativos, destacam-se:
estudantes privados de liberdade matriculados em diferentes cursos de graduação;
acompanhamento semestral regular dos estudantes;
aumento progressivo da permanência acadêmica;
ampliação do número de unidades prisionais envolvidas;
redução das situações de perda de vínculo causadas por mudanças de regime.
Do ponto de vista qualitativo, os impactos são igualmente robustos. Os estudantes relatam que a participação em atividades universitárias reorganiza rotinas, fortalece a autoestima, amplia horizontes de vida e reduz tensões no cotidiano prisional. Equipes pedagógicas observam maior engajamento nos estudos e fortalecimento dos vínculos escolares. Para a universidade, a tecnologia promoveu um avanço institucional significativo: consolidou fluxos inexistentes, capacitou servidores, trouxe visibilidade às ações afirmativas e estimulou o compromisso com grupos historicamente excluídos.
A metodologia também gerou impactos administrativos: melhoria dos processos de matrícula, integração entre pró-reitorias, interação mais qualificada com o sistema prisional e criação de instrumentos duradouros de gestão. Atualmente, o modelo encontra-se plenamente operante e apresenta potencial para ser replicado nacionalmente.
Público atendido
População Carcerária
Adulto
Alunos do Ensino Médio
Alunos do Ensino Superior
Famílias de Baixa Renda
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