Objetivo
Desenvolver uma tecnologia social apropriada para a Casa de Farinha de comunidades quilombolas no Brasil, por meio da construção colaborativa de uma máquina de ralar e prensa alimentar para a produção da farinha com mais eficiência e e sanitariamente adequada, promovendo a valorização dos saberes tradicionais, a melhoria das condições de trabalho e a sustentabilidade socioeconômica quilombola.
Problema Solucionado
A construção das Tecnologias Sociais para a Casa de Farinha - a Máquina de Ralar Mandioca e a Prensa - respondeu a desafios históricos vividos por um território tradicional que ainda enfrenta vulnerabilidades sociais, ambientais e de infraestrutura. A baixa produtividade do fazer artesanal e braçal, somada à ausência de condições sanitárias adequadas, comprometia o rendimento da casa de farinha, limitando a autonomia produtiva da comunidade.
As etapas de ralagem e prensagem, frequentemente vistas como simples processos técnicos, são na verdade o coração da produção da farinha. Nelas, se cruzam saberes ancestrais, estratégias coletivas de organização do trabalho e decisões que definem a qualidade final do produto. A produção da farinha envolve uma rede de interações entre sujeitos, instrumentos e práticas culturais: o conhecimento sobre o ponto ideal de ralagem, o tempo certo de prensagem, materiais e os cuidados sanitários é transmitido oralmente entre gerações e isso não se perdeu. A implementação dessas Tecnologias Sociais trouxe soluções apropriadas e sustentáveis, alinhadas ao modo de fazer local. A nova máquina de ralar ampliou a produtividade e reduziu o esforço físico.
Descrição
A metodologia adotada neste projeto de extensão fundamenta-se na abordagem participativa, sociotécnica e interdisciplinar, estruturada a partir da atuação direta do docente pesquisador do IFBA Simões Filho em diálogo com os mestres da comunidade do Quilomdbo, responsável pelo desenvolvimento do protótipo da máquina de ralar e da nova prensa.
A iniciativa nasce como continuidade do histórico de atuação institucional do IFBA no território, especialmente por meio do Projeto de Extensão TEIAS (2023/2024), das visitas de campo conduzidas pelo docente coordenador e das atividades formativas de disciplinas vinculadas a saberes populares, tecnologias sociais e sociobiodiversidade. Essas ações identificaram vulnerabilidades produtivas e estruturais no processo ancestral de fabricação de farinha, apontando as necessidades técnico-comunitárias que respeitassem os modos de fazer tradicionais.
A participação da comunidade ocorre em todas as fases do processo. As lideranças quilombolas, agricultoras experientes, artesãs e pessoas envolvidas nos ciclos da farinhada atuam como corresponsáveis pelas decisões, contribuindo com saberes sobre o ponto da massa, o tempo de prensagem, o manejo da mandioca e os cuidados sanitários. Essa relação orgânica assegura que a tecnologia social desenvolvida dialogue com o território, fortalecendo autonomia, identidade e soberania produtiva. A interação entre IFBA e comunidade funciona de forma contínua, por meio de visitas técnicas, encontros periódicos, devolutivas coletivas e participação ativa das famílias nos testes e ajustes dos equipamentos.
O projeto foi estruturado em cinco etapas metodológicas:
1. Diagnóstico Participativo e Mapeamento de Demandas:
Realizou-se nova visita técnica ao território para aprofundar o diagnóstico sociotécnico já iniciado. Foram conduzidas rodas de conversa, entrevistas e observações diretas, identificando gargalos na etapa de ralagem e prensagem, riscos sanitários, limitações estruturais da Casa de Farinha e demandas de segurança, produtividade e autonomia.
2. Desenvolvimento do Modelo Técnico:
Com base no diagnóstico, o docente pesquisador elaborou o projeto técnico do novo equipamento, realizando estudos comparativos entre prensas artesanais, mecânicas e hidráulicas. Foi definida uma Tecnologia Social que equilibrasse simplicidade, baixo custo, facilidade de operação, durabilidade e respeito ao modo tradicional de fazer. Modelos em CAD foram desenvolvidos, seguidos por análises de desempenho e de segurança alimentar.
3. Fabricação do Protótipo nos Laboratórios do IFBA:
A prensagem e a máquina de ralar foram desenvolvidas pelo docente pesquisador nos laboratórios de soldagem, mecânica e manutenção industrial do IFBA Simões Filho. Foram adotados procedimentos rigorosos de usinagem, soldagem, corte, montagem e teste de resistência, utilizando materiais duráveis, como aço inoxidável e componentes hidráulicos, garantindo higiene, acessibilidade e aumento significativo da produtividade.
4. Instalação, Testes e Formação Comunitária:
Os equipamentos foram instalados na Casa de Farinha, iniciando-se uma fase de testes com acompanhamento direto das famílias produtoras. Foram realizados ajustes finos conforme sugestões das lideranças, além de oficinas de capacitação comunitária abordando uso, manutenção preventiva, segurança, organização do trabalho, agroecologia e economia solidária.
5. Sistematização, Avaliação e Socialização dos Resultados:
Toda a experiência foi registrada em relatórios, diário de campo, imagens, vídeos e artigo científico. A socialização ocorreu em eventos comunitários, como a Festa da Consciência Negra do Quilombo Dandá, e em ações formativas do IFBA, fortalecendo o caráter extensionista e a difusão da tecnologia social.
Dados e evidências de interação e impacto:
– Mais de 100 famílias beneficiadas diretamente;
– Aumento da participação em feiras de economia solidária;
– Ciclos ampliados de farinhada em turismo de base comunitária;
– Fortalecimento da identidade cultural e da autonomia produtiva;
– Melhoria da segurança alimentar com distribuição do excedente entre famílias;
– Publicação de artigo e registro da experiência em plataformas digitais.
Comprovações e registros:
Artigo científico: https://periodicos.ifal.edu.br/extifal/article/view/2119/1566
APRESENTAÇÃO PARA MINISTRA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA: https://portal.ifba.edu.br/simoes-filho/noticias-1/2025/aluno-do-campus-simoes-filho-apresenta-projeto-teias-ifba-para-ministra-em-encontro-da-sbpc
Instagram (registros da instalação da prensa): https://www.instagram.com/p/DDusuUeg1zA/
Instagram da comunidade: https://www.instagram.com/aquidanda/
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade da Tecnologia Social (Prensa + Máquina de Ralar) exige recursos básicos de pessoal, materiais e logística. .
Para a logística, é indispensável o transporte para visitas técnicas ao quilombo e para o deslocamento dos equipamentos finalizados até a Casa de Farinha. A fabricação pode ser realizada em parceria com laboratórios de Institutos Federais, como os de soldagem e mecânica, como no caso do IFBA Simões Filho. Mas caso não haja um IF ou instituição de tecnologia parceira, é possível contratar o serviço.
Os materiais da Prensa incluem: chapas de aço inox, macaco hidráulico, perfis metálicos, elementos de fixação, insumos de soldagem, discos de corte e paletes para apoio, lixas e Tintas para acabamento, além de mandioca para testes. Para a Máquina de Ralar, são necessários: chapas inox, motor elétrico, rolo ralador, tomada industrial, botoeira de emergência, base metálica, lixas e tinturas e cabeamento adequado.
Como complementos, recomenda-se a impressão de placas de PVC com orientações técnicas, sanitárias e de segurança, além de materiais de registro e documentação.
Esse conjunto de recursos permite a replicação eficiente da Tecnologia Social de forma segura, sustentável e alinhada aos saberes tradicionais da comunidade.No âmbito humano, são necessários: docente pesquisador/coordenador técnico, responsável pelo desenvolvimento e fabricação dos protótipos; técnicos de soldagem, mecânica e elétrica; consultores quilombolas.
Resultados Alcançados
A implantação das Tecnologias Sociais da Casa de Farinha - máquina de ralar e prensa - desde 2023, alcançou resultados expressivos no Quilombo Dandá, beneficiando diretamente mais de 100 famílias envolvidas nos ciclos produtivos e nas atividades comunitárias associadas à farinha e ao beijú. O acompanhamento foi realizado por meio de visitas técnicas periódicas, observação participante, entrevistas com lideranças, registros fotográficos e diálogos com as famílias produtoras durante os ciclos de farinhada, garantindo uma avaliação contínua dos impactos sociais, produtivos e culturais.
Nos resultados quantitativos, observou-se aumento significativo da produtividade da casa de farinha, redução do tempo de processamento da mandioca e maior regularidade nos ciclos de produção. A melhoria da eficiência permitiu ampliar a participação da comunidade em feiras de economia solidária, onde os produtos derivados, especialmente farinha e beijú, passaram a gerar complementaridade de renda para diversas famílias deste quilombo. Parte da produção excedente também passou a ser distribuída entre as próprias famílias como estratégia de segurança e soberania alimentar.
Nos resultados qualitativos, destacam-se o fortalecimento da identidade cultural quilombola, a valorização dos modos tradicionais de fazer e a ampliação da autonomia coletiva. As pessoas relataram orgulho pelo reconhecimento dos saberes locais e satisfação por ver uma tecnologia construída de forma dialogada, que respeita o ritmo, os conhecimentos e a estética da produção tradicional. Houve também melhoria nas percepções sobre segurança sanitária, cuidado com os alimentos e organização do processo de trabalho.
A comunidade passou a realizar com mais frequência ciclos de farinhada em eventos de turismo de base comunitária, ampliando a visibilidade territorial e reforçando a economia local. Além disso, o projeto estimulou o desenvolvimento de novos protótipos e pesquisas na área de Tecnologias Sociais, fortalecendo a difusão científica e a relação entre educação, universidade, sustentabilidade e saberes quilombolas. Como parte desse processo, foi produzido um artigo científico registrando a experiência, contribuindo para a democratização do acesso à ciência e tecnologia e para a consolidação desta tecnologia social como referência regional em práticas sociotécnicas comunitárias.
Público atendido
Agricultores Familiares
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