Objetivo
Promover a inclusão digital de pessoas idosas por meio da familiarização e do uso autônomo dos recursos de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC).
Problema Solucionado
O envelhecimento crescente da população e o avanço acelerado das tecnologias digitais, especialmente com a expansão da Inteligência Artificial, têm ampliado a exclusão digital entre pessoas idosas, sobretudo as de baixa renda. Embora muitas tenham acesso a celulares e internet, faltam habilidades básicas de uso, já que não tiveram oportunidade de aprender essas competências ao longo da vida. Isso dificulta o acesso a serviços públicos digitalizados, reduz autonomia, aumenta o isolamento social e limita a participação cidadã. Barreiras como baixa escolaridade, pouca familiaridade com dispositivos e limitações sensoriais e motoras agravam esse cenário.
Diante disso, a Compaixão, que já atuava na promoção do envelhecimento ativo, estruturou uma iniciativa de familiarização com Tecnologias da Informação e Comunicação. Em bairros como São Cristóvão, onde 11% da população tem mais de 60 anos, a demanda por inclusão digital era evidente. A alta procura pelas vagas e os relatos de maior autonomia e participação social confirmam a relevância da iniciativa “Idosos no Mundo Digital”, que promove inclusão, fortalece vínculos e estimula um envelhecimento mais ativo.
Descrição
A iniciativa “Idoso no Mundo Digital” promove a inclusão digital de pessoas idosas, fortalecendo autonomia, participação social e envelhecimento ativo. Desenvolvida pelas Obras Sociais Missionários da Compaixão, integra um conjunto de ações já oferecidas à comunidade de São Cristóvão, em Salvador-BA, beneficiando mais de 200 idosos em atividades de educação, esporte e promoção da qualidade de vida. Nesse contexto, a educação digital atua como intervenção transversal, com impacto direto na autonomia, autoestima, participação cidadã e interação social de pessoas idosas. As ações do programa são organizadas de forma:
1. Planejamento e Mobilização
A implantação inicia-se com a organização do espaço de práticas, incluindo computadores, acesso à internet, mobiliário e definição do número de participantes conforme a disponibilidade dos equipamentos. A participação é voluntária e ocorre por meio de divulgação interna, redes sociais, cartazes e contato com idosos já atendidos pela instituição. Parcerias com o CRAS garantem o encaminhamento de idosos em situação de vulnerabilidade e asseguram acesso equitativo.
Nessa fase também são realizados o mapeamento do perfil dos participantes, a aplicação de um diagnóstico de habilidades digitais e o levantamento de expectativas. Esses dados orientam a adaptação da metodologia às características reais do grupo.
2. Abordagem utilizada
A metodologia adotada baseia-se na aprendizagem cooperativa, entendida como uma estratégia em que os participantes aprendem em conjunto, apoiando-se mutuamente, trocando experiências e construindo conhecimentos de forma coletiva. Esse formato valoriza o protagonismo do idoso e favorece a participação ativa, a confiança e o aprendizado significativo.
Grupos reduzidos, até 15 participantes, garantem atenção individualizada e um aprendizado adequado às diferentes habilidades e necessidades dos idosos. Cada grupo participa de 12 horas semanais de atividades, ao longo de cinco meses, com aulas distribuídas em dias alternados. Durante essa fase, são promovidas rodas de conversa e palestras temáticas, conduzidas por profissionais voluntários e funcionam como espaços de interação, troca de experiências e fortalecimento de vínculos.
3. Atividades e Conteúdo Programático
A iniciativa combina teoria e prática, com instrução verbal e acompanhamento no laboratório de informática, seguindo apostilas adaptadas às necessidades dos idosos. O conteúdo contempla:
• Conhecimento básico do computador: uso do teclado, mouse, arquivos e pastas;
• Internet e comunicação digital: navegação segura, pesquisa online, e-mails e redes sociais;
• Segurança digital: proteção contra golpes financeiros, amorosos, furto de dados e crimes cibernéticos;
• Prática digital: envio de mensagens, utilização de aplicativos, simulações de situações do cotidiano e exercícios de digitação.
O conteúdo programático pode ser melhor visualizado na apostila disponibilizada em anexo.
4. Proposta didática
Por se tratar de um grupo de idosos, toda a condução das aulas e dos materiais foi cuidadosamente planejada para atender às necessidades específicas desse público. As atividades são realizadas sem prazo definido para avançar para os próximos conteúdos, respeitando o ritmo de cada participante. Só se avança para novos conteúdos quando todos demonstram familiaridade com o assunto anterior e conseguem realizar as tarefas com segurança, garantindo que o aprendizado ocorra de maneira gradual e significativa. Utilizando essa tática, aquelas pessoas que adquirem a habilidade rapidamente passam a auxiliar os demais consolidando ainda mais seu aprendizado.
A metodologia foi adaptada para garantir comunicação simples e acessível. Os participantes aprendem na prática, manuseando seus próprios aparelhos, com liberdade para explorar, enquanto o instrutor oferece acompanhamento próximo e esclarece dúvidas. Os conteúdos foram planejados com foco na acessibilidade, utilizando letras grandes e contraste adequado, considerando que 89% dos idosos relataram baixa visão em nossa pesquisa diagnóstica.
Reconhecendo que o aprendizado é individual, cada aula inclui um momento de diagnóstico processual, baseado em observação e diálogo, permitindo o ajuste do conteúdo conforme as expectativas e a realidade do grupo, tornando as atividades mais significativas para os idosos.
5. Avaliação e Monitoramento
O acompanhamento é contínuo e inclui registro de frequência, otimização do processo ensino-aprendizado e motivos de evasão, além de feedbacks em rodas de conversa e divulgação dos produtos digitais produzidos pelos idosos. São aplicados três formulários processuais para avaliar diagnóstico inicial, alinhamento dos conteúdos e evolução da autonomia digital. Depoimentos dos participantes complementam a avaliação, evidenciando os impactos positivos no cotidiano e nas relações sociais.
Recursos Necessários
A implantação de uma unidade do “Idoso no Mundo Digital” requer uma sala ventilada, iluminada e acessível, adequada para o acolhimento de pessoas idosas. O mobiliário necessário inclui mesas do tipo baia com duas ou três divisórias, produzidas em MDF com tampo passa-fios, além de cadeiras ergonômicas e estáveis.
Os recursos tecnológicos são fundamentais. A unidade deve contar com computadores, cuja quantidade define o número de participantes. Os equipamentos devem possuir processador compatível com as atividades, monitores, teclado e mouse. Parte dos dispositivos deve ser composta por notebooks e parte por desktops para ampliar a familiarização dos idosos com diferentes formatos. A proposta pode ser aplicada mesmo sem computadores, concentrando o ensino no uso de celulares, já que, em nossa experiência, todos os idosos atendidos possuíam aparelho próprio.
Também é necessária uma TV de tela média ou grande, utilizada para demonstrações coletivas, instruções visuais e acompanhamento das práticas. Não é preciso disponibilizar celulares, pois as atividades com smartphones são realizadas nos aparelhos pessoais dos alunos.
Recursos mínimos: sala acessível (1), mesas tipo baia com divisórias (2 a 3 por mesa), cadeiras ergonômicas (1 por participante), computadores desktop (quantidade conforme número de alunos), notebooks (quantidade complementar), monitores LED (1 por computador), teclados sem fio (1 por computador), mouses sem fio (1 por computador) e TV para demonstrações (1).
Resultados Alcançados
Os resultados apresentados a seguir são fruto do processo de monitoramento e avaliação; os formulários processuais aplicados tiveram como objetivo alinhar o conteúdo às expectativas do grupo e evidenciaram características que reforçam a importância da iniciativa. A fragilidade em segurança digital ficou evidente: 75% já receberam tentativas de golpes, mas somente 10% conseguem identificar links suspeitos com segurança. Quanto ao arranjo familiar, 63% vivem com familiares e 37% moram sozinhos, o que aponta diferentes níveis de vulnerabilidade digital. As principais dificuldades identificadas foram com computador e caixa eletrônico (79%), celular (58%) e televisão (37%). Apenas 32% relataram utilizar serviços bancários e 26% fazem marcações de serviço on-line, indicando insegurança no uso de serviços digitais.
Quando perguntados se o curso melhorou sua conexão com o mundo e com a família, 98% responderam positivamente. Além disso, 100% recomendariam a atividade, e muitos demonstraram novo interesse em participar de eventos e até ingressar na faculdade. Um dado relevante é que não houve evasão durante a intervenção, demonstrando ainda mais a importância e o interesse desse conteúdo para esse público. Embora todos já possuíssem celular, ficou claro que muitas funcionalidades eram desconhecidas, incluindo a de acessibilidade, e o curso permitiu descobertas importantes, como pesquisar por imagens, organizar receitas em documentos de texto e utilizar ferramentas de inteligência artificial de maneira segura. A evolução individual foi perceptível, sempre alinhada aos interesses de cada participante.
O desenvolvimento da autonomia também se expressou na criação de conteúdos digitais, na compreensão sobre endereços digitais e na importância de manter dados pessoais em segurança, aspectos que fortalecem a cidadania digital. São inúmeros os relatos dos participantes sobre o compartilhamento do que aprenderam com colegas e familiares. Como na maioria das atividades sociais, observou-se um predomínio da participação feminina, indicando a necessidade de estratégias específicas para ampliar a presença masculina nos próximos anos.
Público atendido
Idosos
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