Objetivo
Promover a autorregulação emocional e a permanência escolar de alunos público-alvo da Educação Especial por meio de pausas sensoriais breves e estruturadas, utilizando o Estojo Sensorial como tecnologia social de baixo custo que fortalece a inclusão, a autonomia e a continuidade das atividades pedagógicas.
Problema Solucionado
Alunos com TEA, TDAH, deficiência intelectual, múltiplas deficiências e transtornos do neurodesenvolvimento enfrentam episódios frequentes de desregulação emocional desencadeados por barulho, luminosidade, proximidade física e excesso de estímulos. Nessas situações, muitos deixam a sala de forma desorganizada, circulam pelos corredores, ficam longos períodos fora da aula ou retornam para casa, prejudicando a aprendizagem, rompendo a rotina pedagógica e comprometendo sua permanência escolar. Professores e auxiliares relatam insegurança diante das crises, pela ausência de estratégias simples, rápidas e acessíveis para acolher o aluno no momento da desregulação. As salas sensoriais fixas, quando existem, exigem deslocamento e afastamento prolongado, o que aumenta a perda pedagógica. Assim, a escola necessitava de uma solução de baixo custo, discreta e de uso imediato que reduzisse a evasão silenciosa, reorganizasse o aluno emocionalmente e permitisse seu retorno rápido à sala, garantindo inclusão, continuidade das atividades e estabilidade da rotina escolar.
Descrição
A Escola Estadual Professora Antônia Coelho de Lucena, localizada no bairro Sílvio Leite,em Boa Vista/RR, tem histórico de atuação social voltada à inclusão, permanência escolar e cuidado integral. Atende alunos com deficiência, estudantes indígenas, crianças e adolescentes venezuelanos e jovens em vulnerabilidade social, muitos em distorção idade–ano e risco de evasão. A comunidade escolar reconhece a unidade como espaço de acolhimento, escuta e reconstrução de vínculos educativos.
A sistematização do Estojo Sensorial surgiu da necessidade de apoiar alunos que, durante episódios de desregulação emocional, deixavam a sala de forma abrupta, permaneciam muito tempo fora ou voltavam para casa, prejudicando a aprendizagem e fragilizando o vínculo com a escola. Professores e auxiliares relataram a ausência de estratégias rápidas e acessíveis, e as salas sensoriais fixas não eram suficientes para situações emergenciais. Assim, iniciou-se um processo coletivo de criação de uma solução simples, discreta e de baixo custo.
A metodologia foi construída por meio de reuniões pedagógicas, registros da Sala de Recursos Multifuncionais, rodas de conversa com estudantes e escuta das famílias. A primeira versão da intervenção — a Mochila Sensorial Itinerante — foi testada e avaliada pelos próprios alunos, que sugeriram melhorias. Com isso, a comunidade escolar aperfeiçoou a proposta, criando o Estojo Sensorial, mais adequado à rotina e aceitação dos estudantes.
A sistematização da tecnologia envolve etapas claras:
1. Diagnóstico: identificação dos alunos com crises frequentes, análise de gatilhos sensoriais e tempo afastado da sala.
2. Escuta ativa: conversas com professores, famílias e alunos para compreender necessidades emocionais e sensoriais.
3. Personalização: montagem de estojos individuais com itens de baixo custo (massinha, pop it, objetos táteis, mini jogos, figuras de emoções).
4. Organização dos pontos de retirada/devolução: definição de locais acessíveis (SRM, coordenação) para garantir pausas rápidas.
5. Formação da equipe: orientações para professores e auxiliares sobre sinais de desregulação, acolhimento e uso adequado da pausa sensorial.
6. Implementação do protocolo: o aluno, ao perceber sinais de sobrecarga, realiza pausa de 10 a 15 minutos com o estojo e retorna à sala.
7. Monitoramento: registros diários feitos por professores auxiliares, incluindo horário, motivo da pausa, materiais utilizados e estado emocional ao retornar.
8. Avaliação contínua: reuniões com docentes e famílias para ajustar materiais, rotinas e analisar impactos.
A participação da comunidade é central para o sucesso da tecnologia. Famílias indicam materiais, oferecem devolutivas sobre comportamento em casa e apoiam a continuidade do processo. Professores do ensino regular colaboram autorizando as pausas, acompanhando o retorno e ajustando práticas pedagógicas. A gestão escolar promove articulações com órgãos como Conselho Tutelar, Polícia Militar, DIPSE, profissionais da saúde mental e setores da SEED/RR, fortalecendo a rede de cuidado.
Indicadores e evidências de impacto:
• redução do tempo médio fora da sala durante crises;
• diminuição de saídas desorganizadas e do retorno antecipado para casa;
• aumento da permanência e participação nas aulas;
• alunos solicitando pausas com autonomia;
• melhoria da autorregulação emocional também observada pelas famílias;
• docentes mais seguros para mediar situações de crise;
• fortalecimento do clima escolar e da cultura de acolhimento.
A sistematização demonstra que o Estojo Sensorial é uma tecnologia social simples, eficaz e de alta reaplicabilidade, construída de forma colaborativa e voltada para garantir permanência, aprendizagem e cuidado. A escola reafirma seu papel como espaço de inclusão, equidade e transformação social.
Recursos Necessários
A implantação do Estojo Sensorial exige materiais simples, acessíveis e de fácil reposição. Os recursos podem ser organizados em três categorias principais:
1. Materiais para os estojos individuais dos alunos:
– estojos escolares;
– massinha;
– pop it pequeno;
– bolinhas antistress;
– objetos táteis variados (macios, rugosos e maleáveis);
– mini jogos visuais (cubo, quebra-cabeça, figuras de memória);
– livro ou caderno de caça-palavras;
– saquinhos sensoriais;
– cartões plastificados das emoções.
2. Materiais de organização e armazenamento:
– estantes organizadoras para os estojos;
– caixas ou cestos organizadores para reposição de materiais;
– etiquetas para identificação dos estojos e kits;
– pastas e envelopes para materiais impressos.
3. Materiais para registro e monitoramento:
– computador para elaboração de fichas, relatórios e planilhas;
– impressora para etiquetas, fichas de uso e instrumentos de acompanhamento;
– planilhas impressas ou digitais para registro das pausas sensoriais;
– quadro ou ficha com regras de uso.
Todos os materiais são de baixo custo, amplamente disponíveis em papelarias ou lojas populares e permitem fácil implementação e replicação da tecnologia em diferentes contextos escolares.
Resultados Alcançados
A implantação do Estojo Sensorial beneficiou diretamente 21 estudantes com TEA, TDAH, deficiência intelectual, múltiplas deficiências, além de alunos indígenas e venezuelanos que apresentavam dificuldade de autorregulação emocional. Os registros mostram redução média de 60% no tempo fora da sala, passando de afastamentos de 20–40 minutos para pausas estruturadas de 8–12 minutos, com retorno mais calmo e retomada das atividades.
Houve diminuição significativa dos casos de retorno antecipado para casa e aumento da permanência escolar. Professores relatam que os alunos voltam mais tranquilos, participam melhor das aulas e demonstram maior autonomia ao reconhecer que precisam de uma pausa antes que a crise se intensifique.
As famílias também perceberam avanços: os estudantes passaram a comunicar melhor seus sentimentos, reduziram irritabilidade e adotaram estratégias sensoriais em casa. A equipe docente relatou mais segurança emocional para intervir e menor estresse durante as crises.
O acompanhamento é feito por meio de planilhas que registram horários, motivos das pausas e materiais mais eficazes, permitindo ajustes personalizados. A coordenação observou redução de interrupções prolongadas e melhoria no fluxo pedagógico.
O impacto positivo também se refletiu no clima escolar, com menos conflitos, maior pertencimento e aumento da confiança da comunidade na escola.
Público atendido
Afrodescendentes
Alunos do Ensino Fundamental
Crianças
Portadores de Deficiência
Povos Indígenas
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